Jornal Diário da Manhã , quarta-feira 28 de setembro de 1983
Negociado na faixa dos Cr$ 5.000,00 a saca no atacado, um ano atrás, o feijão acusou alta de 600% a até 800% até o final deste mês de setembro, com cotações de Cr$ 35.000,00 a Cr$ 45.000,00 como no caso da soja e seus derivados, focalizados em reportagens anteriores, esta incrível disparada decorre de manobras especulativas, que envolvem centenas de bilhões de cruzeiros, estimulada pela omissão, ou mesmo por contradições da prática do Governo, através do Ministério da Agricultura e Comissão de Financiamento a Produção: ainda neste momento, o governo está vendendo feijão de seus estoques a até Cr$ 150,00 o quilo, no sistema de intermediação. Além de proporcionar lucros fabulosos aos intermediários, à custa do Tesouro e do consumidor, essas vendas vêm servindo de instrumento de sustentação da especulação, pois os intermediários, “sentados” em seus estoques, somente compram os volumes que lhes interessam, para evitar que os preços caiam em todo o mercado. Se o governo não partir para a venda direta ao consumidor, imediatamente, reduzindo os preços do produto e contendo a inflação, vai-se repetir, nos próximos meses, a situação esdrúxula já ocorrida no passado: com o começo da nova safra, o feijão da CFP “encalhará” definitivamente, e, deteriorado, acabará sendo transformado em adubo.
A disparada
De janeiro a setembro, os preços do feijão subiram 400% ou mais, para o consumidor, que hoje já chega a pagar mais de Cr$ 1.000,00 o quilo, por alguns tipos de produto (como o gala). A alta, iniciada desde o começo do ano, acentuou-se a partir de julho, com as notícias de queda no Sul do país, em virtude das inundações. No entanto, como no caso de todos os demais alimentos, o governo tinha condições de conter a especulação – pois dispunha de estoques reguladores, (600 mil toneladas), que cobriam perfeitamente as perdas de colheitas. Mais uma vez, porém, a orientação do Ministério da Agricultura-Seplan-Comissão de Financiamento da Produção é absolutamente incompreensível: os estoques de feijão do ano passado e mesmo de feijão novo, colhido na safra das águas desse ano, passou a ser leiloado na Bolsa de Cereais, para ser comprado por atacadistas, empacotadores e redes de supermercados. Nesses leilões, ainda há duas semanas, o preço médio das vendas limitava-se a Cr$ 9.000,00 a saca, isto é, apenas Cr$ 150,00 o quilo, preço cobrado pela CFP, isto é, pelo governo, para venda ao sistema de intermediação. Enquanto isso, o consumidor não conseguia e não consegue comprar o produto por menos de Cr$ 435,00 o quilo, e isto como preços de “promoção” nos supermercados da Cobal, isto é, do próprio Governo. Em conclusão: aos atacadistas e empacotadores o governo vende o feijão a Cr$ 150,00, permitindo-lhes imensas margem de lucro; ao consumidor, o governo vende o feijão a quase Cr$ 450,00, isto é, 200% mais caro.
Não há nenhum segredo para reduzir, imediatamente, os preços do feijão ao consumidor: em lugar de continuar vendendo produto nas bolsas, o produto pode ser vendido diretamente ao consumidor, em caminhões ou barracas montadas por Prefeituras e governos estaduais que comprariam o produto da Cobal. Além disso, o Governo deveria reduzir imediatamente a concessão de empréstimos aos grandes grupos que já detém imensos estoques de cereais, para obrigá-los a desovar estoques, pois há imensa especulação no setor – e há muitos meses.
Apoio à especulação
No dia 15 de agosto, em entrevista no “Jornal da Tarde” de São Paulo, o próprio presidente da Bolsa de Cereais de São Paulo, Antônio Favano Neto, deixava entrever que o mercado de feijão estava sendo manipulado por grupos econômicos, que formaram grandes estoques na época de preços baixos. Naquele mês a CPF estava oferecendo o feijão a Cr$ 9.000,00 a saca, e, no entanto, somente metade do volume colocado em leilão (6.000 toneladas) acabava sendo comprado pelos empacotadores, supermercados e atacadistas. Para o presidente da Bolsa de Cereais, “se realmente houvesse falta do alimento, haveria mais compradores no leilão da Bolsa”.
Outro fator apontado pelo dirigente cerealista para essa baixas vendas, e freqüentemente repetido por representantes de supermercados ouvidos pelo “Diário da Manhã”, é que parte do feijão leiloado pela CPF é “velho”, da safra passada, e o consumidor o rejeitaria por ser “duro”, difícil de cozinhar. O argumento talvez, fosse até aceitável, em outras épocas. Mas hoje, com a carestia dos alimentos levando a população de baixa renda a uma situação de desespero, ele pode ser questionado. Se a Cobal, o governo, vendesse feijão “velho”, da safra passada, ao mesmo preço – Cr$ 150,00 o quilo – hoje cobrado dos atacadistas, milhões de pessoas que hoje passam fome, por não poderem comprar o produto a Cr$ 400,00, Cr$ 600,00, Cr$ 1.000,00 o quilo, certamente passariam a consumi-lo.
O argumento de que não há “mercado” para o feijão do ano passado, assim, serve de “cortina de fumaça” para uma manobra destinada a forçar a venda de outros tipos de feijão, comprados da CFP ou do próprio mercado, no começo do ano, e agora revendidos com imensa margem de lucro. Os supermercados, empacotadores e mesmo atacadistas que compraram o produto em maio a Cr$ 12.000,00, a saca, estão tendo hoje um lucro de no mínimo 200% a 300%, ao vendê-lo a Cr$ 600,00 ou Cr$ 800,00 o quilo (equivalente a Cr$ 36.000,00 a Cr$ 48.000,00 a saca). Um lucro de 200% a 300%, note-se, em apenas 4 meses de “estocagem especulativa”.
Quanto isso representaria, em cruzeiros? O consumo nacional de feijão é hoje da ordem de 200 mil toneladas por mês. Mesmo ao preço médio de Cr$ 500,00 o quilo, nos últimos quatro meses, o consumo de 800 mil toneladas representaria a soma fantástica de Cr$ 400 bilhões de cruzeiros. Se o lucro foi, na pior das hipóteses, de 100% – em média – a especulação estaria rendendo Cr$ 200 bilhões. Apenas nesses quatro meses.