[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Desculpe, sou burro, não entendo

Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 14 de agosto de 1998


O governo FHC decidiu permitir que empresas multinacionais também explorem campos de petróleo no Brasil. Em outros países, latino-americanos ou árabes, que também adotaram essa abertura, as multinacionais estão pagando de 80% a 90% em “comissões”, impostos, direitos de exploração ao governo – cobrados sobre sua renda líquida.

No caso do Brasil da equipe FHC, falava-se em cobrar apenas 55% a 60%, no debate travado nos últimos meses. Alguns críticos apontavam que os percentuais eram muito baixos, quando comparados com a cobrança de outros países – isto é, que o Brasil estava abrindo mão de bilhões e bilhões de reais de arrecadação, com aumento proporcional nos lucros das multinacionais.

De repente, na quinta-feira da semana passada, o governo FHC anunciou sua decisão. Vai cobrar 80%. Ou 90%? Ou os 55% a 60%? Nada disso. Apenas 47%. Os interesses das multinacionais foram vitoriosos. Outra vez.

Mar de petróleo - Pode-se perguntar os motivos da decisão do governo FHC. Vai ser difícil as multinacionais acharem petróleo? Os poços vão produzir poucos barris, na comparação com os outros países? Longe disso.

As multinacionais nem vão precisar gastar dinheiro para procurar, tentar achar petróleo. Elas vão receber autorização para perfurar e explorar o petróleo de áreas já estudadas, anos a fio, pela Petrobrás. Áreas com petróleo. É só perfurar. E começar a faturar.

E a produção, será baixa? Longe disso. As multinacionais poderão abrir poços até na bacia de Campos, na plataforma submarina. E, o que poucos brasileiros sabem até hoje, os poços dessa região têm uma produção absolutamente fantástica, só encontrada anteriormente nos países árabes, como Iraque, Arábia Saudita.

São poços que produzem não cem barris por dia, como nos EUA. São poços de até 7.000 (s-e-t-e m-i-l) barris por dia. Um único poço, a jorrar centenas de milhões de dólares por ano. Entregues a multinacionais a baixo custo de "comissões".

Sempre eles - Além da concessão às multinacionais, a “abertura do mercado petrolífero” prevê também que a Petrobrás poderá fazer parcerias, para levantar mais recursos e acelerar seus projetos. O governo FHC anunciou uma dessas parcerias para o campo de Marlim, na bacia de Campos. A Petrobrás já gastou US$ 2,6 bilhões no projeto e produz ali 230 mil barris/dia.

Agora, o BNDES, aquele banco dito estatal, está criando (há meses) uma empresa, montada com o “apoio técnico” de bancos estrangeiros, para ser sócia da Petrobrás. Capital da empresa: R$ 500 milhões. O que ela vai fazer? Levantar empréstimos de R$ 1,5 bilhão – para aplicar em Marlim e ser sócia nos lucros da Petrobrás.

Pergunta inevitável: se o governo FHC quer levantar recursos para acelerar os planos da Petrobrás; se o campo de Marlim tem produção fantástica; se o petróleo já está descoberto, então por que o BNDES e a equipe FHC não lançaram campanha para a venda de ações da Petrobrás a milhões de brasileiros, empresários e trabalhadores?

Por que, mais uma vez, ao longo de meses, bancos estrangeiros montam uma “operação financeira” e apenas determinadas empresas são “convidadas” a integrar a empresa/parceira da Petrobrás?

Ainda Telebrás - Revelação recente: no primeiro semestre do ano, o governo FHC fez investimentos de nada menos de R$ 4,5 bilhões no Sistema Telebrás, que já estava sendo privatizado. O que isso significa? O governo FHC teve tanta pressa que os R$ 4,5 bilhões correspondem a nada menos de 90% (ou 87%, para sermos mais exatos) dos investimentos que estavam previstos para o ano todo.

Pergunta: por que esse investimento acelerado, com desrespeito às metas do Orçamento – numa fase de “cintos apertados”, corte e retenção de verbas para a saúde, educação ou até o Nordeste?

Por que esses gastos se eles não foram incluídos nos preços de privatização da Telebrás? Eles beneficiaram somente os compradores. Final da história: dos R$ 8,8 bilhões que o governo recebeu como 40% de entrada do preço da Telebrás, mais da metade, ou R$ 4,5 bilhões, já tinha sido torrada, em proveito dos compradores, no semestre. Sobraram só R$ 4,3 bilhões. Sem comentários.

Para conquistar o apoio do consumidor, martelou-se a informação de que as empresas compradoras da Telebrás seriam rigorosamente fiscalizadas pela agência da área, a Anatel. Agora, a Anatel diz que as “metas” de instalação de telefones, qualidade dos serviços etc. só valem no ano 2000.

Diz, a Anatel, que não pode exigir que, até lá, os “compradores” cumpram qualquer meta. Só pode fazer advertências ou auditorias.

Quer dizer: em 1998 e 1999, se os ‘compradores’ instalarem somente 10%, 20%, 30% dos telefones previstos, serão apenas advertidos. Legal, mesmo.

Articulistas iluminados dizem que os dinossauros são incapazes de entender as gigantescas transformações que o governo FHC está promovendo no país. Realmente, os dinossauros são burros.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil