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  Como corrigir a correção

Revista Nova , setembro de 1982


Todas as vezes em que a inflação dispara no Brasil, aparecem economistas e ministros dizendo que é preciso acabar com a correção monetária, ou os preços não cairão. A correção é mesmo culpada pelas altas taxas inflacionárias brasileiras?

Na verdade – e principalmente este ano –, a carestia generalizada é em grande parte resultado de erros cometidos pelos ministros da área econômica. Mas a correção tem culpa no cartório, sim: o que acontece é que, mesmo se houvesse uma política econômica correta, a correção seria um freio a uma queda mais rápida da inflação, de 100% para 60% ou mesmo 40%, por exemplo. Para entender como é que isso acontece, é preciso dizer que as pessoas, quando se fala em correção monetária, pensam apenas nos índices que são usados para o aumento dos aluguéis, ou nos rendimentos pagos às cadernetas de poupança, ou nos aumentos das prestações do BNH. E não é assim.

Na realidade, a correção monetária existe hoje em todas as áreas da economia brasileira, mesmo que ela receba outro nome. Os reajustes de salário são uma forma de correção; os aumentos dos preços mínimos pagos aos agricultores, também; a própria desvalorização do cruzeiro (chamada de desvalorização cambial), idem – e assim por diante. Como você já deve ter percebido – e o próprio nome do sistema está mostrando –, a “correção” nada mais é do que uma forma de “corrigir” os preços de todas as coisas, dentro da economia de um país, de acordo com a inflação existente. Assim: um assalariado recebia 100 cruzeiros há um ano, houve inflação de 90%, quanto ele deve ganhar agora? Os 100 mais 90%, isto é, 190 cruzeiros, responde a correção. Um produtor de feijão recebia 50 cruzeiros por quilo, houve uma inflação de 100%, quanto ele deve receber agora? A quantia de 100 cruzeiros, responde a correção – e assim sucessivamente.

Olhando assim, caso por caso, o sistema parece muito justo, muito simpático – já que a correção impedia “todo mundo” de ter prejuízos com a inflação. Acontece porém que, quando se somam todos os casos de correção, o resultado é que a inflação não cai – exatamente porque, com a correção, “tudo” que custava 100 passa a custar 200 e, logicamente, a taxa de inflação também sobe, de 100 para 200. Um círculo vicioso. Fugir desse beco sem saída não parece fácil, por uma série de problemas. Por exemplo: todo mundo gostaria que as prestações da casa própria cobradas pelo BNH não fossem corrigidas (pela “correção”) de acordo com a inflação. Acontece que o dinheiro que o BNH empresta aos compradores de imóveis é o dinheiro das cadernetas de poupança ou do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (pertencente a todos os trabalhadores). Se o BNH reduzisse a correção das prestações, logicamente teria que reduzir a correção paga também aos depositantes nas cadernetas de poupança e ao FGTS.

Complicado? Mas há saídas, sim. Antes de explicá-las, é preciso que você entenda duas coisas: primeiro, que a inflação prejudica principalmente as famílias de renda média ou baixa, pois quem ganha mais consegue fazer excelentes negócios, especulativos, com a inflação. Assim, vale a pena aceitar mudanças temporárias, que aparentemente nos prejudicam durante algum tempo, se isso for necessário para derrubar a inflação rapidamente. Em segundo lugar, é preciso dizer também que quando toda a população é igualmente “prejudicada” por uma decisão qualquer, no final das contas ninguém saiu perdendo – porque todos saíram “perdendo” na mesma proporção. Simplificadamente, só como exemplo: quem tinha 100 e perdeu 5%, passou a ter 95: quem tinha 50 e perdeu 5% passou a ter 47,5. Como se vê, a proporção não se alterou, já que 47,5 é metade de 95, assim como 50 é metade de 100.

Entendidos? Então, já se pode falar nas saídas, que são de dois tipos. Primeiro, é preciso acabar com a “correção monetária errada”. Ela existe? Existe, sim: os reajustes de salários, como já sabe, são feitos de acordo com o aumento do custo de vida, isto é, com o aumento nas despesas que o trabalhador enfrenta, para manter-se. Está certo. Mas os reajustes dos preços pagos ao produtor de café, ou de trigo ou de feijão, por exemplo, também são feitos de acordo com a taxa de inflação – o que está errado, e vem provocando mais inflação. Os reajustes, aqui, se fossem usados os mesmos critérios adotados para o trabalhador, deveriam basear-se logicamente no aumento de custos dos próprios produtores agrícolas. Se o custo de produzir feijão ou café subir menos que a inflação, o reajuste será menos – e ajudará a “inflação geral” a cair.

Além de acabar com essa correção errada, a outra medida seria reduzir em 10% ou 20% a correção cobrada o paga a todas as pessoas e empresas, em todas as áreas. Lógico que essa política só poderia ser aceita se o povo – através dos deputados, senadores e sindicatos – pudesse fiscalizar permanentemente a aplicação das decisões dos ministros, Do contrário, haveria o risco de manipulações para beneficiar privilegiados, como já ocorreu no passado.



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