Jornal Diário Popular , quarta-feira 29 de março de 2000
Quarto e cozinha, a moradia mais simples possível, situada na periferia remota, sofreu um aumento de nada menos de 11,2% em seu aluguel em fevereiro, na Grande São Paulo. No extremo oposto, os apartamentos de classe média e classe média alta, nos melhores bairros da Capital, continuaram a apresentar aluguéis cada vez mais baixos, com queda de nada menos de 8,5% também em fevereiro, para os tipos com três dormitórios — e uma única exceção de alta, para os apartamentos de dois dormitórios, com avanço na faixa de 2%. Junte você mesmo esses dados e tire suas conclusões: eles mostram as dimensões dramáticas que a crise econômica está atingindo, com conseqüências terríveis para as famílias brasileiras, e cujas cicatrizes perdurarão por muito tempo. A alta dos aluguéis na periferia e a queda nos bairros de classe média são as duas faces da mesma moeda.
Por causa do empobrecimento da população, está cada vez mais forte um verdadeiro processo de ‘‘migração’’, de mudanças de endereço, por parte das famílias de trabalhadores ou classe média em São Paulo e, óbvio, em outras cidades do País. É como se todo o povo brasileiro estivesse descendo a escada da decadência: desde que a crise econômica teve início e o desemprego avançou, com o governo FHC, as famílias, sem condições de continuar pagando o aluguel de um imóvel de dois ou três dormitórios, se mudaram para outro menor, um pouco mais distante; depois para outro, ainda mais acanhado, já em um bairro remoto; agora, no caso das famílias de trabalhadores, partem para o ‘‘quarto e cozinha’’ na periferia da periferia, sem água, sem esgoto, sem transporte, sem trabalho.
A cada avanço dessa onda, há uma queda para os aluguéis dos bairros que vão sendo abandonados, com seus imóveis desocupados, e alta para os aluguéis nos locais para onde a população vai sendo empurrada. Não pense você, porém, que o ‘‘quarto e cozinha’’ é a escala final dessa trajetória humilhante para as famílias de trabalhadores. Afinal, esse tipo de moradia está sendo alugada, agora, por R$ 180 mensais na periferia onde Judas perdeu as botas — por valores maiores em locais menos ermos. Nem essa quantia um número crescente de famílias consegue desembolsar, levando-se em conta que, segundo as pesquisas do Dieese-Seade, comentadas domingo nesta coluna, nada menos de 9% das pessoas ocupadas em São Paulo estão ganhando menos do que o salário mínimo.
O passo seguinte é, inevitavelmente, um só: a construção de um barraco, em uma favela em fase inicial, em uma área ainda mais erma, distante quilômetros e quilômetros do Centro — e dos locais de trabalho. Não pense você que o problema atinge uma minoria de famílias. Pesquisas mostram que, por causa dessa migração rumo à favela, há hoje milhares e milhares de imóveis desocupados, sem interessados em alugá-los, na Grande São Paulo. Quantos? Pasme. Nada menos de 350 mil imóveis vazios. Conquista trágica do governo FHC.