Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 18 de novembro de 1981
A indústria paulista acusou um leve crescimento de 0,9% no terceiro trimestre deste ano, em relação ao trimestre anterior (abril/Junho), confirmando assim as análises deste jornal, de que a economia havia atingido o "fundo do poço" em Julho, esboçando-se um principio de reação, em alguns setores, a partir daquele mês. O resultado figura em uma das tabelas anexas ao estudo que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo divulgou ontem, sobre o desempenho industrial até setembro. Surpreendentemente, porém, o estudo não faz nenhuma menção aquele avanço, preferindo afirmar que a avaliação "dos resultados agregados do mês de setembro não demonstra indícios de recuperação da indústria de transformação paulista. Ao contrário, a tendência declinante, já destacada em oportunidades anteriores, acentuou-se ainda mais."
A contradição entre os resultados mostrados na tabela e essas análises tem uma explicação também já focalizada por este jornal: a Fiesp, como outras entidades empresariais e o próprio IBGE, adotam como norma comparar os resultados de 1981 com os resultados de 1980. Além disso, são levados em conta, também, os resultados acumulados de doze meses, por exemplo, de março de 80 a fevereiro de 81, de junho de 80 a maio de 81, de outubro de 80 a setembro de 81, e assim sucessivamente.
Com essa sistemática, é inevitável que a produção industrial "pareça" continuar caindo, mesmo quando ela já começou a crescer (em relação aos períodos anteriores, deste ano) – como ocorreu agora no terceiro trimestre (julho a setembro). Por quê? Basta lembrar que o índice dos últimos doze meses, até agosto, abrangia os resultados do período compreendido entre setembro de 80 e agosto de 81. Ao serem apurados os resultados de setembro de 81, o índice dos doze meses passou a ser outro: saíram os resultados de setembro de 80 (quando a produção era mais alta) e entraram os resultados de setembro de 81 (com produção mais alta que em agosto de 81, porém mais baixa que em setembro de 80).
Dentro desses critérios, os dados da Fiesp mostram uma queda no nível de atividades da ordem de 14% em setembro, em relação a 1981, e uma queda acumulada de 7%, no período janeiro a setembro de 1981, em relação aos primeiros nove meses de 1980. O número de empregados na indústria era 11,2% inferior, em setembro, ao resultado de igual mês do ano anterior, mas o acumulado de nove meses indicava um recuo bem menor: 5.2% a menos.
A partir da queda acumulada de 7% de janeiro a setembro, em relação a igual período de 1980, a Fiesp prevê que o ano deve fechar com um recuo de 8%, na produção industrial. No entanto, o trabalho observa que, para essa estimativa, "adotou-se a hipótese de que o nível de atividades do quarto trimestre (isto é, de outubro a dezembro) seja idêntico ao do terceiro trimestre deste ano, isto é, um crescimento de 0%" para as atividades Industriais, nesse final de ano, em relação ao terceiro trimestre.
Ainda que do ponto de vista da economia – e do desemprego - o que importa é que "o pior tenha passado", não se pode deixar de analisar as possíveis causas do pessimismo dessa previsão da Federação das Indústrias. Segundo as próprias estatísticas que ela tem fornecido quase semanalmente, desde outubro há claros sintomas de reação em alguns setores, refletido na recontratação de mão-de-obra. Por que o último trimestre não acusaria aumento na produção?
Haveria, no entanto, uma explicação para essa expectativa de um recuo de 8%, até o final do ano, a saber, o desempenho da indústria automobilística, setor que tem grande "peso" no cálculo ponderado das atividades industriais. Ocorre que, em 1980, a produção de veículos bateu recordes exatamente no último trimestre do ano, com 327 mil unidades fabricadas (e que provocaram os grandes estoques do começo de 1981). Como a produção de veículos, este ano, está longe da casa das 100 mil unidades mensais produzidas no final de 1980, é evidente que a indústria automobilística poderá puxar o índice de todo o setor Industrial para baixo: mesmo que em outros setores a produção cresça substancialmente, será difícil compensar a queda na área dos veículos, dado aquele seu imenso peso no resultado total da indústria.
Mas o País estará, ai, diante de uma crise "setorial". Não de uma "recessão" em toda a economia.