Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 21 de abril de 1982
As autoridades monetárias não crêem na possibilidade de nova elevação nas taxas de juros cobradas nos empréstimos às empresas, como vem sendo previsto por dirigentes do mercado financeiro. Descartam, também, a possibilidade de uma “crise generalizada” no “open market”, diante dos prejuízos crescentes que instituições financeiras viriam enfrentando desde dezembro último.
A possível alta do custo do dinheiro no mercado interno seria a conseqüência natural, segundo representantes dos bancos, da decisão recente do Banco Central, que elevou as “taxas de juros” pagas aos compradores de Letras do Tesouro Nacional. “Para poder concorrer com os títulos do governo”, afirmam, “os bancos precisariam pagar até 130% ao ano aos compradores de seus certificados de depósitos bancários – CDBs”. Ultimamente, a remuneração desses papéis estava na casa dos 108% ao ano, e o dinheiro captado através da sua venda era emprestado às empresas a uma taxa de 138 a 145% ao ano. “Se os bancos passarem a pagar 130%, automaticamente cobrarão 160 a 165% das empresas, para manterem sua margem de lucro (ou “spread”), com nova escalada de juros no País”.
Para as autoridades monetárias, o raciocínio não corresponde à realidade: “As pressões que vêm sendo desencadeadas contra o Banco Central e a política monetária representam, exatamente, o desagrado dos bancos diante da redução da sua margem de lucro. O investidor em CDB poderá, realmente, exigir uma remuneração melhor, mas não acreditamos que os bancos consigam elevar o custo do dinheiro, para as empresas”.
─ Por quê?
─ Há, no momento, grande oferta de empréstimos externos, na faixa de 30 milhões de dólares por dia. Se o custo dos empréstimos internos voltasse a subir, ele ficaria muito acima do custo dos financiamentos externos, que passaria a ter a preferência das empresas.
No entender de Brasília, esse obstáculo levará os bancos a resistirem contra aumentos exagerados no custo de colocação dos CDBs, que não deverão chegar aos 130% falados, situando-se possivelmente na faixa máxima de 115%. De qualquer forma, haverá redução na margem de ganho dos bancos. “Mas os altos lucros de 1981 e mesmo neste começo de ano justificam perfeitamente essa redução. Não há motivo para protestos”.
SEM “ENCILHAMENTO”
A mesma motivação – busca de lucros – estaria, segundo as autoridades monetárias, por trás dos insistentes rumores de que as instituições que operam no “open market” estão enfrentando dificuldades crescentes, caminhando para uma situação insolúvel. Os problemas, nessas análises estariam sendo provocados pelo próprio governo: os “rombos” no orçamento monetário e os gastos das estatais vêm exigindo violenta ampliação da dívida interna, representada pela “venda” das Letras do Tesouro Nacional e Obrigações Reajustáveis do Tesouro. Ao fazer colocações maciças de seus títulos no mercado, dizem as análises, o governo provoca escassez de recursos “puxando” as taxas cobradas no “open market”, sobre o dinheiro que as instituições tomam emprestado para sustentar suas carteiras de títulos. Como conseqüência, as instituições passaram a ter prejuízos, porque pagam, pelo dinheiro tomado emprestado, juros mais altos do que a remuneração recebida pelos títulos que possuem. A recente elevação da remuneração das LTNs pelo Banco Central seria, segundo os dirigentes financeiros, uma admissão clara de que a situação é insustentável. Ela, porém, foi insuficiente para eliminar os prejuízos das instituições.
Para as autoridades monetárias, a argumentação não procede, e por isso não se cogita de nenhuma mudança na orientação atual:
─ A recente elevação da rentabilidade das LTNs não foi, em absoluto, o reconhecimento de que o diagnóstico traçado pelo mercado financeiro seja correto. Ela se deveu, exclusivamente, a um fato concreto: a inflação, neste começo de ano, superou as previsões e por isso se fez aquele reajuste. As tentativas de responsabilizar o governo e o banco Central por prejuízos de algumas instituições têm um objetivo, inaceitável: o que se pretende é que o Banco Central injete recursos maciços no “open”, a pretexto de melhorar a liquidez e reduzir as taxas de juros. Isto é, a tentativa é conseguir mudanças na própria política monetária, reduzindo-se o controle sobre a expansão da moeda, com prejuízos previsíveis para o País.
E, num arremate: “O Banco Central tema função de administrar a política monetária, e não de administrar os lucros das instituições, no “open”, agindo para assegurá-los. Se há instituições com prejuízos, porque não avaliaram corretamente as perspectivas do mercado, isso é normal numa economia de mercado. Além do mais, assim como os bancos, elas tiveram imensos lucros no “open”, no ano passado. Podem enfrentar um período de perdas”.