Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 3 de novembro de 1981
A queda da inflação, para uma taxa em torno de apenas 4% (ou menos) em outubro, estava totalmente fora dos planos do governo, que esperava, neste final de ano, índices em torno de 5% ao mês. Ainda que à primeira vista, possa parecer contraditório, o fato é que o declínio muito rápido da inflação está provocando não apenas satisfação mas também preocupação, em áreas oficiais, pois criará problemas inesperados em várias áreas da economia. O próprio orçamento da União e das empresas estatais para 1982, por exemplo, foi montado prevendo-se uma inflação média de 80% para o próximo ano, com índices mais altos no começo do exercício, declinando progressivamente nos meses subseqüentes. Se essas previsões estiverem erradas, isto é, a inflação cair mais rapidamente do que o Ministério do Planejamento desejava, a arrecadação da União — que acompanha a inflação — não atingirá suas metas, dificultando o pagamento de compromissos já assumidos pelo Tesouro e empresas estatais. Idênticos problemas seriam enfrentados pelos Estados, Prefeituras e mesmo empresas privadas, cuja programação para 82 vem sendo feita com base em um nível mais alto de inflação, conforme aponta o empresário financeiro Roberto Teixeira da Costa, diretor do "banco de negócios" Brasilpar Comércio e Participações. Redução imediata das taxas de juros seria uma das primeiras providências que o Planejamento deveria estudar, ante o declínio nas taxas da inflação, para evitar que as empresas mergulhem em sérios problemas financeiros já no começo do próximo ano. Para isso, o governo precisaria adotar uma das medidas já propostas, por economistas e entidades empresariais como a Fiesp, para "separar" o custo dos empréstimos externos e o custo dos empréstimos internos. Como se sabe, um dos pretextos para a elevação dos juros internos, neste final de ano, foi a necessidade de elevá-los acima do custo dos empréstimos externos, para forçar as empresas a procurarem financiamentos internacionais, que representam a entrada de dólares de que o País precisa para atender aos compromissos da divida externa. Segundo Teixeira da Costa, as taxas de juros na casa de 150% ao ano (e mais) já representam um custo real (isto é, descontada a inflação) para os empréstimos, na casa dos 60/55% ao ano, com uma taxa anual de inflação na casa de 95/90% ao ano, que deveria prevalecer neste final de 1981 e primeiros meses de 1982. Com o declínio na alta de preços, no entanto, as empresas que precisem tomar empréstimos no momento — e os diretores financeiros devem estar atentos a esse risco — passam não apenas a serem ameaçadas de prejuízos, pelo crescimento do custo real do dinheiro, como correm o perigo de não poderem saldar seus compromissos, no futuro, porque seu faturamento (fonte dos recursos para pagar as parcelas dos empréstimos tomados hoje) cresceria a um ritmo mais lento. Ainda que as despesas também venham a avançar menos rapidamente, persiste a ameaça de surgirem problemas de fluxo de caixa. Para o economista Carlos Lessa, da Uferj/Unicamp, a adoção de mecanismos que forcem a captação de recursos externos sem elevar os juros internos "é uma necessidade inquestionável" já há muitos meses, com ou sem declínio da inflação. Apoiando a posição defendida pela Fiesp, meses atrás, Lessa aponta que, para 1982, as autoridades monetárias não poderão adiar, mais, uma decisão a respeito, pois a tentativa de equiparar os juros externos e internos (através da elevação destes últimos) tem sido e é uma das distorções da política econômica adotada este ano. Para Lessa, como para Teixeira da Costa, a melhor solução seria mesmo recorrer ao contingenciamento, isto é, o Banco Central exigiria que os bancos, na concessão de empréstimos, usassem parte de recursos captados no mercado interno e parte originária do Exterior, cobrando-se também uma taxa de juros mais baixa — que seria a média dos custos entre os dois tipos de recursos.
SÓ PÓS-FIXAÇÃO
A queda na inflação trará riscos aos próprios bancos, se eles não modificarem seus métodos de atuação. Atualmente, predominam no mercado as operações com taxas de juros "pré-fixadas", isto é, independentes da inflação: os investidores que compram certificados de depósitos bancários ou letras de câmbio recebem 110%, 115% ao ano (na última semana, houve bancos pagando 123% ao ano), pagos pelas instituições financeiras. Elas, por sua vez, cobram também juros "pré-fixados", na casa dos 150% ao ano (ou mais), ao realizarem empréstimos às empresas, usando os recursos captados junto ao investidor. Se as empresas se retraírem diante desses juros, incompatíveis com o declínio da inflação, e a demanda por empréstimos cair, as instituições que estão pagando taxas altas na captação não conseguirão cobrar um custo tão elevado de seus clientes — e ficarão com dinheiro "parado", sofrendo prejuízos. Qual a saída? O mercado financeiro deve ampliar rapidamente as operações com correção monetária pós-fixada (isto é, acompanhando a inflação), tanto para as operações de vendas de títulos como de empréstimos às empresas, exatamente como a Fiesp propôs, há meses.
Taxa cambial deve acompanhar queda
O recuo mais rápido para as taxas de inflação significa que mesmo a queda do cruzeiro, isto é, a correção cambial, deverá ser menor do que o previsto, no próximo ano — e nos próximos meses —, já que ela está acompanhando a correção monetária. Como o custo dos empréstimos externos depende basicamente da correção cambial, a verdade é que, com a inflação menor, as "taxas de juros" dos financiamentos captados no Exterior não atingirão, no final do ano de 82, os níveis previstos até agora, isto é, são, na verdade, menores do que se tem admitido. Esse declínio na correção cambial reforça a necessidade de "separar" as taxas internas das taxas externas: as taxas de juros, dentro do Brasil, estão sendo "puxadas" a um nível exageradamente alto, calculado com base em uma correção cambial exagerada, prevista antes do declínio da inflação. O ideal seria adotar a "pós-fixação" dos juros em todos os empréstimos. (A.B.)