Jornal Diário Popular , domingo 28 de maio de 2000
Os ricos estão cada vez mais ricos no Brasil, enquanto a renda da classe média e povão continua a despencar ladeira abaixo. Assim, a distribuição da renda no Brasil, que já era uma das piores de todo o mundo, continua a ficar cada vez mais distorcida. É impossível mudar esse quadro? Em entrevista, o presidente Fernando Henrique Cardoso diz que só existem três caminhos para isso: aumentar o piso de ganho do trabalhador, ‘‘tacar’’ imposto de renda sobre a parcela de 1% dos brasileiros mais ricos que abocanham imensa fatia da renda nacional, e oferecer educação para a população mais pobre. Esse ‘‘diagnóstico’’ do presidente da República é uma das maiores tolices que o Brasil já ouviu. Em qualquer país do mundo, todas as decisões do governo, em todas as áreas, podem melhorar ou piorar a distribuição da renda, isto é, as medidas podem garantir que os resultados do crescimento do País sejam repartidos entre a maioria da população, ou sejam sempre desviados para os mais ricos. É tudo muito simples, como se pode ver em poucos exemplos que mostram como o governo FHC privilegia sempre os ricos:
Impostos — o próprio secretário da Receita Federal revela que metade das 500 maiores empresas do Brasil pagam menos de 0,5% (meio por cento) ao ano de Imposto de Renda sobre seus lucros. Trabalhadores e classe média pagam de 15% a 27,5% Os donos das empresas e seus acionistas ficam cada vez mais ricos.
Juros — pequenos e médios empresários pagam 40% de juros ao ano, nos bancos, e a classe média e os trabalhadores pagam até 12% ao mês, no cheque especial ou crediário. Os grandes empresários recebem empréstimos a juros de pai para filho, 11% ao ano, no BNDES, o banco estatal.
Crédito — o pequeno e médio empresário, o trabalhador que quer montar ou ampliar seu negócio tem imensa dificuldade para conseguir empréstimos, que são concedidos sempre aos mesmos grupos. Agricultura — além da falta de crédito para plantar, os pequenos e médios agricultores sofrem imensos prejuízos quando aumentam sua produção, pois os preços desabam — porque o governo não compra mais sua produção. Basta lembrar o que tem acontecido com os produtores de laranja, feijão (há dois meses), arroz (agora), frango (agora). Milhões de famílias perdem renda, ficam arruinadas, vendem suas terras.
Importações — arruinaram milhões de empresários, esempregaram 2,1 milhões de trabalhadores na indústria, ‘‘quebraram’’ milhões de agricultores.
Privatizações — na França, Inglaterra, Itália, o governo emprestou dinheiro para milhões de habitantes comprarem ações das suas estatais — isto é, o povo passou a ser ‘‘sócio’’, a participar dos lucros das empresas. Aqui, foi tudo doado a poucos grupos vergonhosamente. Por limitação de espaço, a lista pára por aqui. Mas já ficou claro que são as decisões do governo, em qualquer área da economia, que melhoram a renda de toda a população — ou beneficiam só os ricos. O presidente FHC esqueceu tudo o que escreveu no passado. Isso, todo mundo sabe que é verdade. Difícil é acreditar que ele se esqueceu também do que sabia sobre economia. Sua explicação cheira a desculpa para continuar beneficiando os ricos.