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  Bamerindus e ’’cortina de fumaça’’

Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 23 de julho de 1996


Não dá para entender o estardalhaço contra a operação de socorro ao Bamerindus. Por que toda essa discussão?

Afinal de contas, como esta coluna já denunciou, há meses o governo FHC/BNDES vem colocando em prática uma política ’’secreta’’ para beneficiar todos os bancos, isto é, não apenas aqueles com problemas, mas também os grandes bancos _com lucros.

A estratégia, que já consumiu bilhões de reais, é um verdadeiro Proer secreto, não aprovado pelo Congresso: os bancos privados estão empurrando para a Caixa Econômica Federal e o Banco Central os ’’micos’’ de difícil recebimento, como é o caso das carteiras de empréstimos imobiliários, ou que somente seriam recebidos a longuíssimo prazo, como os créditos do FCVS (Fundo de Compensação de Variações Salariais). Se essa é a rotina, não cabe questionar o apoio ao Bamerindus _ou qualquer outro.

A política de favorecimento ao mercado financeiro tem sido beneficiada pela falta de reação do Congresso e da sociedade. A omissão é tão grande que a equipe FHC/BNDES perdeu qualquer respeito para com a opinião pública, brindando-a com mentiras que nem uma criança aceitaria.

Justificando

Em abril, a novidade: a CEF anuncia a compra da carteira imobiliária do Econômico, no ’’valor’’ de R$ 1,7 bilhão. O presidente da CEF, Sérgio Cutolo, prevê novas operações com outros bancos, por tratar-se de ’’ótimo negócio para a Caixa’’, em busca de ativos ’’de boa qualidade’’ e ’’liquidez’’.

Congelando

Carteiras imobiliárias envolvem empréstimos aos mutuários do sistema habitacional, isto é, compradores de casa própria. Não são de boa qualidade, nem têm boa liquidez, porque estão sujeitas a fases cíclicas de atrasos e inadimplências. Por isso, os bancos querem se livrar delas.

Atrasando

Há poucos dias, a CEF comprou a carteira imobiliária do Banorte. Agora, seu presidente inventou uma vantagem nova: redução no prejuízo do Tesouro.

Como? Haveria menor inadimplência, pois os bancos ’’acabam não se esforçando muito na cobrança, porque sabem que o governo cobre o rombo’’.

O senhor Cutolo se enganou. O governo só cobre o rombo do FCVS, responsável pelo ’’resíduo’’ de contratos. Não saldos devidos e não-pagos.

Mais confusão

O noticiário sobre o Bamerindus está fazendo grande confusão em torno dos bilhões que o Tesouro deveria pagar aos bancos, por conta do FCVS. Diz que as dívidas vencidas e não-pagas chegam a R$ 17 bilhões. Falso.

Falsidade

Dos R$ 17 bilhões, só R$ 7 bilhões, pela lei, deveriam ter sido pagos. E atenção: desses R$ 7 bilhões, nada menos que R$ 5,5 bilhões são créditos de FCVS que o Tesouro deveria pagar à CEF. Aos bancos? Só R$ 1,5 bilhão.

Ilegalidade

No entanto, o BC, em várias operações, já ’’comprou’’ créditos do FCVS de R$ 7 bilhões pertencentes a grandes bancos privados. Pagou dívidas não-vencidas. Dívidas do Tesouro, pagas sem previsão no orçamento. Sem autorização do Congresso.

Quem não quer?

Bancos recebem antecipadamente. Fornecedores, empreiteiras, credores diversos da União amargam calotes (inclusive de ’’compulsórios’’...).

Piada

Diz-se que a CEF não tem prejuízos ao comprar créditos ’’podres’’ e FCVS dos bancos. É mesmo? Engraçado. Se a CEF usar esse mesmo dinheiro para ampliar os cheques especiais a seus clientes, ou operar no crédito ao consumidor, poderá cobrar de 8% a 10% ao mês. Ganhará muitas vezes mais.

O ’’caso Bamerindus’’ é mera cortina de fumaça, capaz de distrair a opinião pública e o Congresso. O que deve ser discutido é todo o apoio do governo FHC/BNDES aos bancos.



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