Jornal Folha de S.Paulo , quarta-feira 16 de março de 1983
Cresce a cada dia o número de empresários e economistas que, em conversas reservadas ou publicamente, defendem a proposta de o Brasil declarar a “moratória”. Isto é, dar o “calote” nos credores internacionais, deixando de pagar os compromissos da dívida externa. A proposta poderia até receber apoio, se ela se baseasse em argumentos razoáveis e fosse fruto de profunda reflexão sobre todas as conseqüências da “moratória” na área economia e política – inclusive para que qualquer decisão nesse sentido fosse acompanhada da imediata implantação de uma estratégia destinada a minorar os problemas que ela originaria.
Não é o que se vê. A defesa da moratória, hoje, surge como um sintoma e desespero e impotência da sociedade, diante dos problemas da dívida externa. Fala-se em “moratória” como uma saída mágica (bem ao gosto do ministro Delfim Neto), capaz de resolver todos os problemas brasileiros, da noite para o dia. Sonha-se que, com ela, o País ficaria livre do FMI e poderia “voltar a crescer”, haveria importações à larga, iríamos todos para a praia, em carros reluzentes e etecetera.
A atual obsessão com a moratória é, assim, um claro processo de fuga à realidade, confinado durante anos aos gabinetes dos desplanejadores de Brasília, e que agora contagiou a sociedade. Seis ou sete meses depois do início das negociações com o FMI, o País não quer olhar a realidade de frente, admitir que está “quebrado”, que precisa de uma política para enfrentar a crise.
Seis ou sete meses depois do início das negociações com o FMI, o Brasil não tem uma política de ajuste da economia, não adotou programas de emergência, não cuidou nem de uma política de emprego, continua a “empurrar tudo com a barriga”. Não se cobra a falta dessa política, a Brasília.
Namora-se, cada vez mais ardorosamente, a idéia da “moratória”, repetindo o escapismo infantil dos desplanejadores – pois se esquece que a “moratória” significaria a suspensão das importações, paralisando a economia, com todas as conseqüências na área social e política.
Já se mostrou, em análises anteriores publicadas pela “Folha” (14/03 e 15/03) que, bem ou mal, o Brasil montou um esquema para “rolagem” da dívida externa em 1983, não se justificando os rumores sobre “rombos” de 3, 6 ou 10 bilhões de dólares freqüentemente divulgados sem que se tenha o cuidado de exibir os cálculos pelos quais se chegou a essas cifras.
É evidente que a montagem desse esquema não significa que, durante todo este ano, e mesmo em 1984, não haverá momentos em que o país voltará a enfrentar problemas de caixa, falta aguda de dólares, exigindo novas viagens de representantes brasileiros ao Exterior. Por quê?
Porque parte da dívida brasileira – quase US$ 20 bilhões, segundo os dados oficiais – se refere a empréstimos de curto e curtíssimo prazo, contraídos junto a centenas de bancos. Nas negociações deste começo de ano, os credores se dispuseram a “refinanciá-los”, mas, como se trata de operações com necessidade de renovação constante, sempre haverá o risco de, em determinados momentos, o Brasil ser atingido por uma suspensão das linhas de créditos de grupos de credores.
Ainda que tudo isso seja verdade, isto é, que o esquema já montado seja frágil, dependendo de renegociações permanentes, a perspectiva não justifica as previsões de “rombos” – e inevitabilidade da moratória.
Está-se esquecendo, nessas análises, de um aspecto fundamental da questão. Fundamental e político: já desde o segundo semestre do ano passado, o que não é ignorado por ninguém, os governos dos EUA e de outros países ricos decidiram impedir a “quebradeira” dos países endividados, inclusive por temor de que a crise econômica dela decorrente gerasse convulsões sociais.
No caso do Brasil, especificamente, é largamente sabido que grande número de bancos norte-americanos somente concordou com o refinanciamento graças a intensas pressões do governo Reagan, através do Banco Central de lá. Aonde se pretende chegar? À conclusão de que o Brasil não enfrentará “rombos” insolúveis, não ficará contra a parede, não será empurrado para uma moratória, por incapacidade de “rolar” sua dívida. Por motivos políticos, o “socorro” dos países ricos virá, sempre que necessário, evitando a moratória.
Esse “socorro”, é evidente, tem uma condição (entre outras): que o País crie juízo, adote uma política econômica. Para isso, precisa deixar de sonhar com a “saída mágica” da moratória. Ou estudá-la em profundidade.