Jornal Folha de S.Paulo , domingo 14 de março de 1982
Desde 1964, nenhum governo enfrentou uma situação internacional tão difícil quanto o do presidente Figueiredo: dentro dessas circunstâncias adversas, sua política econômica foi "a melhor possível", conseguindo evitar que o barco da economia fosse a pique, tragado pela crise cambial. Agora, porém, há necessidade de reajustes e revisões em sua estratégia.
Há uma surpreendente unanimidade no julgamento das linhas-mestras da política econômica do governo Figueiredo – com eventuais discordâncias em relação, apenas, a aspectos parciais -, por parte das lideranças empresariais nas áreas da indústria, comércio, agricultura e finanças. A coincidência de opiniões fica clara nos depoimentos colhidos pela “Folha” junto a Albano Franco, presidente da Confederação Nacional da Indústria – CNI; Teófilo de Azevedo Santos, da Federação Nacional dos Bancos - Fenaban; Fábio Meirelles, presidente Federação da Agricultura do Estado de São Paulo; Abram Szajman, presidente em exercício da Federação do Comércio do Estado de São Paulo; Paulo Francini, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo - Fiesp, e Abílio Diniz, membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp.
A “herança”
“Quando ocorreu o primeiro ‘choque do petróleo’, com a triplicação de seus preços, em 1973, esse produto continuou a figurar como o terceiro item de maior peso na pauta de importações brasileiras – lembra o empresário Abílio Diniz -, com o primeiro e segundo lugares cabendo às compras de bens de capital e produtos básicos (aço, papel, metais não-ferrosos, fertilizantes). Por isso mesmo (o que é esquecido por muitos críticos, que de forma simplista dizem que o governo Geisel nada fez diante do ‘choque do petróleo’), o governo brasileiro, em 1974, partiu para um programa de grandes investimentos destinados a substituírem as importações daqueles produtos, mais onerosas para o País” (sem falar que a grande elevação na produção de petróleo dependeria de eventuais descobertas de novos campos, isto é, os investimentos nessa área não ofereciam certeza quanto à possibilidade de êxito, ao contrário da substituição dos demais produtos).
O fato, rememora Abílio Diniz, é que o governo Geisel procurou solucionar os problemas da balança comercial sem dar prioridade ao petróleo, por causa de seu peso relativamente menor na balança. Quando sobreveio o "segundo choque do petróleo", em 1979, com a elevação de seus preços para a faixa dos 30 dólares o barril, o Brasil e o governo Figueiredo, que então se iniciava, foram duramente atingidos. Não bastasse o peso do petróleo, aponta Diniz, houve ainda o "choque das taxas de juros", com sua brutal elevação nos mercados internacionais em 1981, somando-se a uma terceira adversidade, a saber, e situação recessiva das economias dos países industrializados.
Endossando esse diagnóstico – como de resto os demais entrevistados -, Abram Szajman, presidente em exercício da Federação do Comércio de São Paulo, lembra que esse quadro impediu que o governo Figueiredo estabelecesse uma estratégia de longo prazo, sendo “obrigado” a viver o dia-a-dia, as mínimas mudanças de conjuntura, eternamente de olho no problema da dívida externa, da crise cambial”.
O grande erro
Aqui, Teófilo de Azeredo Santos, Paulo Francini e Abílio Diniz fazem uma ressalva, de restrição à política econômica dos últimos três anos. Diante da precariedade da situação cambial brasileira, “os responsáveis pela política econômica – diz Paulo Francini – cometeram tremendo erro ao colocar o ‘pé no acelerador’, em 1979/80. Esse erro nos custou, está nos custando e nos custará caro por muito tempo” – afirma o diretor da Fiesp, numa alusão à política de crescimento acelerado adotada pelo ministro Delfim Netto, logo após a queda de Simonsen, quando afirmava que “a dívida externa não tem importância, o importante é crescer”. Não há dúvida, diz Abílio Diniz, que a política de “cintos apertados” – ou a recessão – de 1981 foi uma conseqüência desse erro, somando a outro, a saber, o “tabelamento” da correção monetária e da correção cambial em 1980, que aqueceram ainda mais os negócios e as importações, agravando o problema da dívida externa. Daí a necessidade do “aperto” de 81.
Há uma atenuante, para o primeiro desses erros dos planejadores do governo Figueiredo. “Não se pode esquecer – diz Francini – que havia forte pressão em favor de uma política desenvolvimentista, a ponto de provocar o afastamento de Simonsen. Com honestidade, devemos reconhecer que, errando ou não, o governo atendeu aos reclamos da sociedade.”
Uma atitude, em resumo, coerente com os propósitos de “abertura” do presidente Figueiredo – área em que as lideranças empresariais fazem os mais entusiásticos elogios ao seu governo. Para todos os entrevistados, o presidente Figueiredo vem cumprindo suas promessas de redemocratização do País, considerando-se, mesmo que os eventuais tropeções, como os chamados “pacotes”, são desvios temporários que não impedem que o caminho traçado continue a ser percorrido, e independem, muitas vezes, da vontade do Presidente: “Não se pode esquecer que ele sofre a oposição de áreas contrárias à redemocratização, precisando eventualmente recorrer aos desvios para aplacá-las e poder seguir viagem, numa etapa seguinte.” Albano Franco, da CNI, e Fábio Meirelles, da Faesp, consideram ter havido brutal melhora no diálogo, no entendimento entre empresários e governo, que passou a consultá-los nos temas ligados à área política. “Mesmo na área econômica”, aponta Albano Franco, “ninguém vai negar que continua a haver uma excessiva centralização de decisões, mas o fato é que, pelo menos em relação a alguns Ministérios e ao próprio Presidente, o relacionamento é, hoje, totalmente diferente de três anos atrás.” Confirmando essa opinião, Fábio Meirelles e Abram Szajman apontam uma área onde, no seu entender, o espírito novo, de abertura, não chegou: o segundo e terceiro escalões de tecnocratas, no seu entender, continuam a agir de forma autocrática chegando, inclusive, a “torpedear” decisões adotadas pelos ministros e pelo Presidente.
Albano Franco lembra, como transformação fundamental, que esse espaço criado pelo governo para a atuação dos empresários trouxe a renovação das diretorias das entidades de classe, dando-lhes mais representatividade - e fechando o círculo, maiores condições de contribuir para o diálogo com o governo, e para a abertura. Quanto à centralização das decisões, ainda constatada, é crença dos líderes empresariais que ela será gradativamente diluída – principalmente após a realização das eleições de novembro, quando também o Legislativo deverá renovar-se e ganhar novo papel dentro do País.
A atitude compreensiva para o governo Figueiredo, em seus três primeiros anos de vida, muda quando se pergunta sobre o futuro: predomina entre os empresários a opinião de que é preciso fazer reajustes urgentes na política econômica, sob pena de a economia aprofundar a recessão, e o País mergulhar em uma crise social que poderia comprometer o próprio processo de abertura.