Jornal Folha de S.Paulo , domingo 30 de junho de 1996
Os banqueiros estão rindo à toa no governo FHC. Não é só por causa dos bilhões de reais despejados nos bancos "quebrados", não. Esse socorro é o Proer "visível", o escandaloso programa do qual todo brasileiro já ouviu falar. Pior, mesmo, é que existe um "Proer invisível" para os bancos lucrativos, aos quais o governo FHC está presenteando com bilhões de reais do nosso dinheiro. Toda a sociedade, isto é, empresários, classe média e povão está pagando e vai pagar ao longo de muitos anos por essa operação pró-banqueiros.
Em poucas palavras: o governo FHC está "engolindo" todos os negócios menos lucrativos, ou que podem dar prejuízos aos bancos privados agora e no futuro. Essa política lesa-sociedade, com qual nem os banqueiros ousariam sonhar, vem sendo aplicada em quatro áreas principais (há outras, que ficam para análise posterior). Empréstimos habitacionais, empréstimos a construtoras, Fundo de Compensação de Variações Salariais _e redesconto. Como o governo FHC age? Para favorecer os banqueiros, tem utilizado não apenas o Banco Central, mas também a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, transformados pela equipe FHC/BNDES em uma grande lixeira de "papéis podres" e "operações podres", ruinosas, em uma escala sem precedentes.
Os empréstimos a compradores de casa própria acumulam problemas bem conhecidos. Entre eles, a inadimplência, ou atraso no pagamento das prestações, que se agravou com o Plano Real por causa do congelamento de salários, aposentadorias e vencimentos do funcionalismo. Em algumas áreas, a inadimplência chega a 50%. É um dinheiro de difícil recebimento, "crédito podre ou semipodre", que os bancos poderiam aplicar com maiores lucros em outras áreas. Riscos do capitalismo. O que o governo FHC está fazendo? Mandou a CEF comprar a carteira imobiliária" dos bancos "quebrados" _beneficiando, com isso, os bancos "compradores". Como a sociedade não protestou, o governo FHC está indo mais longe: a CEF está comprando carteiras imobiliárias, de créditos podres e semipodres, de todos os bancos.
As empresas imobiliárias constroem apartamentos, casas, com dinheiro do FGTS _que lhes é emprestado pelos bancos privados com dinheiro repassado pela CEF. Quando as construtoras e incorporadoras não pagam os empréstimos, os problemas de cobrança e prejuízos são do banco emprestador. Eram. Pois a CEF está "comprando", "engolindo" também essas dívidas, livrando os bancos privados dos empréstimos "podres".
Como ultra-sabido, os bancos, inclusive a CEF, têm R$ 21 bilhões a receber do Tesouro, destinados a cobrir o "rombo" do Fundo de Compensação de Variações Salariais. Desses R$ 21 bilhões, apenas R$ 8 bilhões são de créditos já vencidos, isto é, que o governo já deveria ter pago, e vem dando calote. Os demais R$ 13 bilhões correspondem a contratos já encerrados, mas que o governo somente deveria pagar no futuro, em até dez anos. Do "calote" de R$ 8 bilhões já vencidos, a CEF teria a receber R$ 5,7 bilhões, e os bancos privados apenas R$ 2,3 bilhões. No entanto, o BC aproveitou o Proer para "comprar" dos bancos privados lucrativos R$ 11 bilhões em créditos do FCVS. Isto é, quase cinco vezes o valor dos R$ 2,3 bilhões já vencidos. Em outras palavras: pagou aos bancos privados lucrativos até as dívidas que o Tesouro somente deveria quitar em até dez anos. E a CEF? Não recebeu nada dos R$ 5,7 bilhões atrasados, já vencidos.