Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 22 de julho de 1982
A ofensiva do presidente da Associação Comercial de São Paulo contra a política salarial repete críticas já desmentidas nos últimos meses;
* Pequenas empresas — realmente, é nelas que predominam os assalariados que ganham até três salários mínimos. Mas os dados da RAIS, analisados no trabalho "Observações sobre o padrão de emprego e remuneração nos estabelecimentos brasileiros", da FIPE-USP, mostram que, nos estabelecimentos com 5 a 10 funcionários, esses assalariados ficam com apenas 40% da folha de salários. Quer dizer: o aumento de 10% de um INFC de 50% (se a inflação for 100% ao ano) representa 5%: logo, 5% de 40% da folha de salários representam 2%; se a folha de salários representar 10% ou 20% do faturamento, esses 2% se reduzem a 0,2% a 0,4% do faturamento de empresa. Isso, note-se, para os estabelecimentos com 5 a 10 funcionários. Até 20 funcionários, a sobrecarga "insuportável" de 0,2% a 0,4% do faturamento se reduziria, pois a fatia da folha de salários que cabe aos trabalhadores com até 3 salários mínimos é cada vez menor, à medida que a empresa cresce.
* “Achatamento” da classe média — trabalhos da Federação do Comércio de São Paulo já mostraram que o fenômeno decorre de medidas do governo como o aumento do Imposto de Renda na fonte, inclusive através da não-atualização das tabelas, e aumento das contribuições ao INPS. A lei, tem sido dito e repetido, não proíbe que as empresas reajustem os salários mais altos a níveis até superiores à inflação. Ela estabelece o reajuste mínimo, não o máximo.
Em seu próprio documento, o senhor Guilherme Afif Domingos, viu o “lobo”, ao mostrar que os problemas as empresas decorrem de falta de crédito, juros altos, aumento do Imposto de Renda — isto é, a culpa é do governo, por ação ou omissão. Preteriu atirar contra os cordeiros.