Revista Isto É , quarta-feira 26 de março de 1980
Ninguém diz, mas grandes fábricas extinguem empregos
Primeira página dos jornais, estardalhaço na televisão, comoção nacional ante mais um "crime" contra a população: a venda de pastéis, em feiras livres de São Paulo, com "ração para cachorro" substituindo a carne. De novo o clima de "caça às bruxas" – no caso o pequeno empreendedor ou empresário (pois os pasteleiros o são), que a burrice nacional teima em tentar fazer abortar. Eta país mal-informado, este, com a opinião pública sempre manipulada, para confundir "grande empresa" com "grande qualidade" e "pequena empresa" com "porcaria". Eta país, este, que, de preconceito em preconceito, mais se atola em seus problemas.
A FUNDO. Pode não parecer, à primeira vista. Mas o "caso dos pastéis com carne para cachorro" tem muito a ver com a inflação brasileira, a miséria brasileira, a concentração da renda brasileira, o desemprego entre a população brasileira. Com o "modelo brasileiro", enfim. A denúncia da prefeitura de São Paulo foi vaga, isto é, não informou, com precisão, o que seria a tal "comida para cachorro". Segundo os feirantes, tratava-se de farinha de soja (mais exatamente, "proteína texturizada". de soja), misturada à carne. Nada de nojento, de repulsivo, de prejudicial à saúde do consumidor. Dirão os sacerdotes do dogma "grande empresa é igual a grande qualidade" que havia, de qualquer forma, uma fraude contra o consumidor, que comprava soja por carne e pagava o preço da carne. Preocupação comovente. Mas o que esses sacerdotes não dizem é que os hambúrguers vendidos pelos grandes frigoríficas também têm farinha de soja à larga, isto é, segundo a prefeitura de São Paulo também têm "comida de cachorro" à larga (sem falar que apresentam, hoje, vastíssima quantidade de gordura, que se liquefaz no momento da fritura e é jogada fora). E não só os hambúrguers: os "frios" (por isso criam bolor, rapidamente, quando guardados na geladeira), as salsichas (idem) e os etecéteras dos grandes frigoríficos vão pelo mesmo caminho, aumentando imensamente seus lucros às custas do consumidor.
A PERSEGUIÇÃO. "Bem", dirão ainda os fariseus, "e as bactérias fecais, os micróbios de coco encontrados nos pastéis?" Aqui, os órgãos incumbidos de defender a saúde pública deveriam entrar em cena para derrubar o mito da "grande empresa, sinônimo de grande qualidade",divulgando seus relatórios sobre vinagre produzido com ácido (e não vinho), doces, sorvetes, gelatinas, margarinas, queijos, o diabo a quatro fabricados com corantes, aditivos, substâncias químicas cancerígenas ou que são um "veneno lento" para o organismo humano. Por ironia, o caso dos "pastéis para cachorro" foi logo seguido pela divulgação de um relatório de pesquisadores da Universidade de São Paulo. Nele, a constatação de que o leite B é tão contaminado, cheio de bactérias fecais, quanto o leite C, não passando de uma empulhação, com autorização do governo, para os grandes pecuaristas se enriquecerem e os pequenos pecuaristas irem à falência. Juntando-se todos esses dados, pode chegar-se a questões amplas:
• Saúde do consumidor: deve ser defendida, sim. Mas isso não deve servir de pretexto para a perseguição ao pequeno produtor, ou pequeno empreendedor. Ao contrário: as grandes empresas têm "força" para continuar enganando o público, inclusive com autorização oficial. E, já se disse aqui, nesta coluna, para produzirem em escala são forçadas a usarem produtos químicos que matam o consumidor a longo prazo. Os sanitaristas do Brasil têm a obrigação de responder a uma questão, com urgência: o que é, estatisticamente, mais mortal ou prejudicial: a contaminação por bactéria (contra as quais o organismo humano desenvolve defesas) ou a contaminação química de efeito cumulativo e da qual o corpo não se defende?
• Inflação: a perseguição ao pequeno industrial, ao pequeno produtor, ao ambulante, reforça situações de monopólio dentro do mercado. Reduz a concorrência, facilita a cobrança de preços absurdos - e a própria deterioração da qualidade.
• Concentração da renda: é agravada pela formação dos monopólios e pelo fechamento dos pequenos negócios.
• Desemprego: finalmente a nação brasileira não parece ter-se dado conta, ainda, de um fenômeno óbvio (embora paradoxal): uma grande fábrica, de uma grande empresa, não cria, forçosamente, mil empregos — mesmo que ela tenha mil empregados. Como assim? É que ela pode, na verdade, extinguir 10 mil, 20 mil empregados ao substituir, com sua produção, a produção de milhares de pequenos empreendedores ou produtores, sejam eles de comidas ou de roupas (uma gigantesca fábrica de jeans rouba o trabalho de milhares de costureiras e alfaiates), bebidas, sorvetes, sapatos, móveis, objetos decorativos, brinquedos, peças de cerâmica etc. A nação se esqueceu, ou não descobriu ainda, que não é preciso investir bilhões e bilhões de cruzeiros para "criar" empregos, meia dúzia de empregos em fábricas ultramodernas ou lavouras tecnificadas. Ao contrário: esses investimentos podem é gerar desemprego crônico, em massa, eternizando a marginalização de milhões de brasileiros. No momento em que se debate o problema do desemprego no país, é importante tomar consciência desse paradoxo e passar a estimular a criação de empregos — e não a formação de grandes empresas. Sobretudo nas áreas problemas, sejam elas o Nordeste ou a Baixada Fluminense; essa é a única saída racional.
COMO ADVERTÊNCIA. Para informação de quem julgar tudo correto, porém sem utilidade prática, é necessário dizer que o contrário é verdadeiro. Mais precisamente: o Brasil ainda tem tempo de adotar uma política de emprego baseada na produção semi-artesanal, doméstica, familiar (fora de São Paulo, evidentemente). Em alguns países isso foi feito, proibindo-se a instalação de fábricas que "roubassem mercado" (e emprego) dos pequenos empreendedores. Proibido, note-se bem. Quem estimulou essa política? O Banco Mundial, de Mc Namara, que concedeu empréstimos para políticas de apoio aos pequenos empreendedores. É bom pensar nisso.