Revista Nova , julho de 1982
Chegou a era dos robôs. No mundo todo, as indústrias passaram a usá-los. O Brasil não vai poder fugir a essa tendência. É o “progresso tecnológico”, que nenhum país pode evitar, ou “ficará para trás”.
Você vai ouvir essas afirmações muitas vezes, daqui para a frente, e não poderá deixar de sentir uma forte inquietação: “Mas – pensará – os robôs tomam o lugar dos trabalhadores, substituem mão-de-obra. O que será do povo brasileiro, daqui a alguns anos, sem mercado de trabalho? As pessoas vão ser condenadas a viver na miséria?” Não é preciso ser assim – se o povo brasileiro, o trabalhador brasileiro, você, enfim, souber reagir contra a “moda dos robôs”.
Para entender melhor o problema, é preciso lembrar que os países que buscam desenvolvimento econômico passam geralmente por três etapas. No “começo”, o país é pobre, não tem renda para realizar obras públicas, comprar máquinas, etc. Nessa fase, o país usa as duas coisas de que dispõe com fartura, para fazer sua economia crescer: terras e mão-de-obra (chamados pelos especialistas de “fatores de produção”, juntamente com o “capital”, o dinheiro, que é o terceiro deles).
Nessa fase, portanto, o país seria agrícola, com as lavouras e criações criando empregos e criando renda, “dando dinheiro”, aos habitantes, através da venda da produção – tanto no mercado interno como no mercado externo.
Com o lucro da venda dos produtos agrícolas, começa a “sobrar dinheiro” para a população e o país (é o que os técnicos chamam de “acumular capital”). Esse dinheiro, esse capital, permite que o país comece a crescer economicamente: ele é usado para construir hidrelétricas (que alimentarão fábricas), montar indústrias, comprar máquinas. Acelera-se a industrialização.
Quando um país tem “juízo”, ele sabe adotar políticas de crescimento, industrialização, que faça o seu capital render o máximo possível – e, ao mesmo tempo, uma política que traga um bem-estar crescente à sua população. Como assim? Esse país em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, começa a ter capital – mas ainda tem pouco capital, dinheiro, para resolver todos os seus problemas, permitir o crescimento. Então, esse país vai usar uma política econômica que use os “fatores” que existem em larga escala, isto é, terras e mão-de-obra. Isto significa, na prática, que o país só comprará as máquinas essenciais (porque elas custam dinheiro) e continuará usando o dinheiro para problemas mais urgentes. Em outras palavras, um país que tem muita mão-de-obra e pouco capital não gastará dinheiro com a mecanização, com a automatização – que, além de gastar capital, não aproveita a mão-de-obra, não cria emprego. Por causa do desperdício, a economia cresce mais devagar do que seria possível – e os problemas sociais, o desemprego, persistem.
Mas a tal tecnologia não é somente computador, robô, máquinas demoníacas. “Tecnologia” é a forma de fazer qualquer coisa – e um país deve usar o método que mais lhe convém, que use os próprios fatores de que dispõe. Por exemplo: os países industrializados da Europa ou o Japão não tinham terras nem clima para plantar algodão, para fazer tecidos. Então, inventaram técnicas para fazer tecidos sintéticos, que usam o petróleo como matéria-prima. Mas o Brasil, que tem terras e milhões de desempregados, aceitou que multinacionais viessem produzir fibras sintéticas em seu território. Resultado: deixou de criar centenas de milhares de empregos, nas lavouras de algodão, cujos agricultores, por sua vez, ganhariam dinheiro e comprariam bens produzidos por outras indústrias – criando novos empregos e fazendo toda a economia crescer. Além de “desperdiçar” a mão-de-obra e as terras, o uso da tecnologia “boa” só para os países rico trouxe outros desperdícios ao Brasil: foi preciso gastar dinheiro, capital, com fábricas caríssimas – e passar a gastar dinheiro com a importação de petróleo. Tudo errado, por causa da tecnologia errada.
Chegamos, assim, aos robôs. Você já deve ter entendido que um país usa máquinas, usa tecnologia baseada em máquinas, quando isso é vantajoso para ele. Quando isso barateia a produção, quando representa uma “economia”, para o país. No Japão, onde 2% da população enfrentam o desemprego, os salários são mais altos, o gasto de capital com um robô pode compensar, ficar mais barato do que usar trabalhadores. Além do mais, o Japão e outros países ricos têm uma população de alta renda, que consome “serviços” (terceira etapa de um processo de crescimento), de turismo e educação – que criam empregos fora da indústria.
E o Brasil? Aqui 30% dos trabalhadores ganham até um salário mínimo. E 60% deles ganham menos de três salários mínimos. Desemprego e subemprego alucinantes. Só por “macaquice” pode pensar em começar a usar robôs à larga.