Jornal Folha de S.Paulo , sexta-feira 30 de abril de 1982
A grita empresarial contra a queda na produção e contra os juros altos foi ouvida e a política econômica será modificada gradualmente, possivelmente por interferência direta do presidente da República. Estas as conclusões a tirar das decisões tomadas anteontem pelo Conselho Monetário Nacional, por mais tímidas que elas pareçam, à primeira vista.
E ótimo que o governo tenha acordado, finalmente, atacando problemas que todos enxergavam, e que ameaçavam levar o País a uma grave crise. O perigo de curto prazo parece temporariamente afastado. Falta, agora, sem nenhuma má vontade para com os méritos da decisão presidencial, esperar que o governo escute também as recomendações de líderes empresariais e economistas, no sentido de que o País precisa de uma política econômica de longo prazo. Precisa de planejamento que lhe permita aproveitar seus recursos naturais sem necessidade de endividar-se cada vez mais, tornando a economia cada vez mais dependente do Exterior e, por isso mesmo, sujeita a crises cíclicas que atingem e continuarão a atingir a economia mundial (que se aproxima de um novo ciclo de "reequilíbrio", porém apenas temporário, já que há problemas estruturais que só se resolverão com uma nova ordem econômica mundial e um novo relacionamento Norte-Sul).
Como forma de reativar o consumo, os ministros da área econômica propuseram — e o CMN aprovou — mudanças no crédito ao consumidor: redução dos juros e extinção do limite de expansão para as financeiras (que, de acordo com o orçamento monetário, somente poderiam emprestar 80% a mais, este ano, em relação ao resultado de dezembro de 1981).
A decisão, é evidente, foi fortemente influenciada pela queda nas exportações brasileiras, ampliando a crise de setores industriais que, diante da retração do mercado interno, vinham colocando parte da produção no mercado externo — uma tendência para a qual a Folha alertou há mais de dois meses, em meio a desmentidos de ministros e planejadores de Brasília.
Antes tarde do que nunca: o importante é que o governo sensibilizou-se com um problema pela primeira vez em mais de um ano. Pode-se questionar, contudo, se o caminho escolhido foi o melhor, ou, mesmo, se a medida é suficiente para "reanimar" a economia, ou tende a beneficiar poucos setores.
As novas condições das vendas a crédito, é evidente, visam ao setor de bens de consumo duráveis — eletrodomésticos, automóveis, móveis, cine-ótica-som — cuja produção (e uso) exige importações (petróleo, no caso dos automóveis). Vale dizer: terão influência negativa sobre a dívida externa. Mais uma vez, os planejadores de Brasília desprezaram o caminho alternativo, para a "reativação" sem agravamento da dívida externa, representado pelo estímulo ao consumo de bens de massa: alimentos, calçados, têxteis, utilidades domésticas simples, não dependentes ou pouquíssimo dependentes de importações. Seu consumo poderia ser incentivado através da melhora do nível de renda das faixas de ganhos mais baixos da população — via salário mínimo, por exemplo (que, automaticamente, beneficiaria também os trabalhadores das faixas imediatamente superiores).
A proposta, aparentemente, é "contra os interesses da classe média", teoricamente a maior beneficiária das novas condições do crediário, como grande compradora dos bens de consumo duráveis Quem chegou a essa conclusão apressada, adquiriu o mesmo vicio dos planejadores de Brasília. Isto é, deixou de raciocinar com clareza, só sabendo pensar em termos de "corta-o-crédito-aumenta-o-crédito-corta-o-crédito-aumenta-o-crédito".
Ninguém ignora que a classe média teve seu poder aquisitivo fortemente atingido nos últimos anos, por uma série de fatores. Por isso mesmo, as famílias dessa faixa suprimiram as compras de uma série de produtos, ou aumentaram seu nível de endividamento, para atender a despesas inevitáveis. O que interessa à classe média, portanto, não é "facilidades de crediário" para comprar bens de consumo duráveis, e sim recuperar, em parte, seu poder aquisitivo, para que as famílias voltem a comprar o que necessitam ou desejam.
Do ponto de vista da "reativação da economia" haveria o aumento do consumo de um grande número de bens, beneficiando a um maior número de segmentos industriais — e com um efeito negativo muito menor sobre as importações e a dívida externa. Para isso, bastaria atualizar a tabela de recolhimento do Imposto de Renda na fonte (inclusive para profissionais liberais) — conforme proposta da Federação do Comércio — reduzindo sua cobrança e deixando assim mais dinheiro na mão do contribuinte e sua família.
Ainda há tempo para pensar nessas alternativas. No caso do salário mínimo, o valor de maio já está decidido. Mas a lei não impede que ele sofra novo reajuste antes de seis meses: ume nova atualização poderia ser feita pelo governo dentro de 90 dias.