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  Dona Maria, espantada com o dr. David

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 5 de junho de 1999


Família de classe média, marido executivo bem-sucedido, dona Maria é uma brasileira dinâmica, que resolve montar uma confecção com mais três amigas. Sua marca conquista o mercado, as vendas crescentes justificam novas ampliações da empresa e até a abertura de lojas para vendas diretas. Ao fim de três anos, as sócias já aplicaram R$ 500 mil na empresa e, aí, resolvem dar uma descansada.

Não querem, porém, vender a firma. Decidem arrendá-la, isto é, entregá-la a outros(as) empresários(as), que passarão a explorar o lucrativo negócio. Como é feito o arrendamento? Dona Maria e suas sócias passarão a ter uma participação, digamos de 1%, sobre o faturamento da confecção, agora nas mãos de um arrendatário.Mas é claro que essa participação de 1% é uma ninharia quando comparada com os investimentos de R$ 500 mil que dona Maria e suas amigas já fizeram na empresa. Claro. Por isso mesmo, nesses negócios de arrendamento, o novo “dono”, o arrendatário, “devolve” também uma parte do investimento que foi feito pelos criadores da empresa.

Dona Maria é dinâmica, esperta. Só entrega a empresa a quem lhe der 20% ou 30%, isto é, R$ 100 ou R$ 150 mil do dinheiro que ela e suas sócias aplicaram. É assim que se faz qualquer negócio, em qualquer país do mundo. Por isso mesmo, dona Maria, apesar de ser "tucana", está absolutamente espantada com as explicações que o governo FHC vem dando sobre os leilões que vai realizar este mês, nos próximos dias, para permitir que empresas multinacionais (37) e brasileiras (5) arrendem áreas onde se sabe que existem bilhões e bilhões de barris de petróleo: Eu não acredito, diz ela ao marido, Pacheco, no café da manhã. Os jornais noticiam que as ofertas iniciais das empresas interessadas nessas áreas são de R$ 50 mil a R$ 150 mil... Será que os jornais não erraram e querem dizer R$ 50 milhões? Afinal, sabe-se que nessas áreas surgem poços de petróleo fantásticos, que produzem até 10 mil barris de petróleo por dia cada um... – Por dia ? Mas isso é uma loucura, os pocinhos dos EUA produzem uma titica, de 100 barris por dia e olhe lá. – Eu também não sabia, foi a Sílvia que me alertou. Será possível que o governo está distraído, como aconteceu em outras privatizações? Afinal, pondera dona Maria, nem eu entrego minha empresa por tostões. – Não é distração, não. Eu vi uma entrevista do presidente da Agência Nacional do Petróleo, o sr. David Zylbersztajn. Ele dizia que esse preço tem de ser baixo, simbólico mesmo, porque o petróleo sofreu violenta queda no mercado mundial. – Ah, Pacheco. Essa explicação não serve mais. O petróleo subiu 60% a 80%, de US$ 10 para US$ 16 ou US$ 18 o barril, nos últimos meses. Esse, aliás, é o fato econômico mais importante do ano, pois vai agravar a crise dos EUA, que importa de seis a oito milhões de barris de petróleo por ano. – Dizem até que é por isso que países como o Brasil estão sendo pressionados pelo Fundo Monetário e países ricos a entregar seu petróleo a multinacionais. Os EUA e os países ricos dependem do petróleo. E não é para fabricar gasolina e movimentar automóveis, como a maioria das pessoas pensam, não. É para produzir energia elétrica, em usinas chamadas termelétricas. Sem petróleo, a economia dos EUA e de outros países ricos pára, simplesmente, pondera Pacheco. Dona Maria faz um gesto de enfado: – Olha, não quero nem entrar nesse tipo de discussão. Mas quero, e acho que todo brasileiro deveria querer também, que o país receba um preço justo pelas suas reservas de petróleo. Depois que os preços internacionais do petróleo subiram, sabe o que o sr. David Zylbersztajn está dizendo agora? – Acho que vi alguma coisa... – Imagine só, Pacheco, ele diz que as jazidas de petróleo podem ser dadas a preços de banana porque o que importa são os impostos que o governo vai arrecadar depois, com a produção do petróleo... Pacheco concorda: – Raciocínio estranho... – Só pode ser distração... Até eu, diz dona Maria, se arrendar minha confecção, não vou “dar” para o interessado os R$ 500 mil que investi nela. Ninguém faz isso. – Você tem razão. O governo Fernando Henrique Cardoso está confundindo os impostos futuros, que qualquer empresa tem mesmo de pagar, em qualquer lugar do mundo, com a participação que todos os governos, de qualquer país do mundo, cobram sobre a exploração do petróleo... Aliás, no resto do mundo esses impostos chegam a ser de 60% a 70% do valor do petróleo extraído, e aqui vai ser cobrado a um nível muito mais baixo, de 19% a 50%. Note bem: esses impostos não iam sair do bolso do consumidor, não. Eles sairiam dos lucros fabulosos das empresas petrolíferas... – Engraçado, reflete dona Maria. Os poços daqui vão ser os mais lucrativos do mundo, e a parte do governo, isto é, do país, vai ficar entre as menores do mundo? Pacheco levanta-se, limpa a boca com o guardanapo e prepara-se para sair. – Só mais uma coisa, Pacheco. Ouvi dizer também que as multinacionais estão comprando por R$ 300 mil os estudos que a população brasileira financiou durante décadas, para descobrir petróleo em todo o território do país. Será possível? Mas esses estudos custaram bilhões de reais à população, bilhões da classe média, povão e empresários, agricultores. Não deveriam ser vendidos a um preço decente, ainda mais que são esses estudos que garantem que as multinacionais vão apenas perfurar e o petróleo vai começar a jorrar? Esses estudos são o mapa da mina e estão sendo cedidos pelo preço de um apartamento ou um carro importado? Pacheco faz um gesto de desalento com os ombros e despede-se. Dona Maria resmunga: – É por isso que o governo comete os maiores absurdos no Brasil. Está doando o que não lhe pertence. Ninguém reage, ninguém pressiona o Congresso. Imagine se isso aconteceria nos EUA, onde o cidadão quer saber como é usado cada tostão do seu patrimônio e dos seus impostos. O Brasil está sendo literalmente saqueado por países estrangeiros, arrematou, indignada, dona Maria.



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