quarta-feira 20 de novembro de 1991
Não é só a recessão que está derrubando os preços e a taxa de inflação, não (a FGV já mandou recado ao ministro Marcílio, antevendo para novembro um índice mais baixo do que em outubro). O fato é que, e isso está sendo meio esquecido nas análises, a alimentação pesa quase 40% no cálculo dos índices de inflação, e, como ela subiu 30% em outubro, acabou respondendo pela metade (!) da inflação do mês, isto é, algo como 12 pontos percentuais ou (12%) para uma taxa na faixa dos 25%. Assim, o que já está derrubando as taxas de inflação neste momento é o recuo dos preços agrícolas. Bem fez a secretária Dorothéa, que se apressou em divulgar alguns desses recuos. Mas a equipe do governo como um todo pode fazer mais, muito mais, para acelerar a queda da inflação, reverter fulminantemente as expectativas inflacionárias e, com isso, encurtar até o doloroso período de recessão. Por enquanto, o exemplo da secretária Dorothéa é um caso isolado: pode-se dizer que, infelizmente (e mais uma vez), há porta-vozes do governo até atrapalhando a queda da inflação e a reversão de expectativas. Como assim? Insistem, aqueles porta-vozes, em prever que os preços (que já estão caindo) só cairão em janeiro + fevereiro, quando as novas safras chegarem ao mercado. Ora, há uma confusão nessa previsão. Janeiro + fevereiro marcam início do auge da comercialização das safras do Sul + Sudeste, mas o fato é que as novas colheitas já estão entrando no mercado e por isso os preços vão cair, estão caindo. Só como lembretes, humildes, ao Planalto Central, não custa repassar a situação dos principais produtos: 1. Carne – a entressafra já está terminando, dezembro é plena safra. Por isso mesmo, a arroba do boi finalmente caiu cerca de 10%, na semana passada. Baixa acompanhada por frangos, pela carne suína e, por extensão, derivados (presunto, salame etc.). 2. Leite – também por força da recuperação das pastagens, com a chegada das chuvas, a produção de leite aumentou rapidamente. Começam a surgir cortes nos preços, “ofertas” de queijos e outros derivados, cujo valor chegara a estratosfera neste segundo semestre (um pacotinho de 100 gramas de queijo ralado inferior, a quase mil cruzeiros...) 3. Feijão – Já está entrando no mercado a produção do Paraná e regiões de São Paulo, onde o regime de chuvas começa mais cedo, em julho + agosto (colhe-se o feijão com 90 dias de cultura). 4. Batata – excelente safra, preços arrasadoramente baixos, levando produtores à ruína. No começo da semana, saca de 60 quilos a Cr$ 500,00 no atacado paulista, vale dizer, a Cr$ 250,00 (e olhe lá) ao produtor no interior. Isso mesmo: Cr$ 4,00 (quatro cruzeiros o quilo...). Há gente passando o trator em cima das plantações. Por que a secretária Dorothéa não dá um telefonema ao governador Fleury e à prefeita Erundina, e lhes sugere que coloquem caminhões na rua vendendo batata a Cr$ 20,00, Cr$ 50,00 o quilo ao povo? Haveria maior escoamento (pois os preços no varejo não caíram tanto, hoje), a batata substituiria o arroz (menor pressão sobre os seus preços). E, principalmente: o governo evitaria que o agricultor deixe de plantar batata nos próximos meses – provocando então escassez e disparada dos preços. Só um telefonema, secretária Dorothéa... 5. Cebola – idem, ibidem. Quadro idêntico ao da batata. 6. Arroz – Aqui, sim, as safras só chegam ao mercado no começo do próximo ano. Mas o governo tem estoques de arroz de seqüestro, nada menos de 2,0 milhões de toneladas, que o “lobby” dos especuladores não deixa que Brasília venda, com a desculpa de que “o brasileiro não gosta desse tipo de arroz”. Será mesmo, secretária Dorothéa? Com um saco de 5 quilos de arroz a Cr$ 3.000,00, a senhora acha mesmo que o “povão” não gostaria de (pelo menos) poder comer o produto de sequeiro pela metade do preço? Volte ao ponto central. Os preços do alimentos estão recuando desde já. É, portanto, importante, muito mais importante do que se pensa, que o governo proclame isso, diariamente – e fique ele próprio atento ao fenômeno. Por quê? Antes de mais nada, porque as quedas de preços levam cerca de quatro semanas para serem plenamente incluídas nos cálculos dos índices. Quer dizer: só daqui a um mês, mesmo, é que as taxas de inflação vão “mostrar” a queda que já ocorre. Hoje. Agora. Quer dizer: sem nenhuma necessidade, os juros vão continuar exagerados, calculados para uma inflação de 30% que não existe; os custos financeiros das empresas, idem; a TR, da mesma forma, sangrando dinheiro do Tesouro (pois ela é paga também sobre a dívida interna), provocando aumentos de preços de serviços e contratos (aluguel etc.) – também desnecessariamente, isto é, com base em uma inflação que já não existe. Nesse ciclo de queda de preços, a equipe econômica vai precisar ampliar o comportamento da secretária Dorothéa, e estabelecer esquemas para “medir” a inflação a intervalos mais curtos (tem-se que pensar, por exemplo, em uma TR calculada para, no máximo, uma quinzena). Tudo isso pode acelerar a queda da inflação. Por isso, os humildes lembretes.