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  Se o freguês quiser pagar demais, desconfie

Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 1º de outubro de 1975


As cotações mundiais do açúcar dificilmente deixarão de sofrer novas quedas, ante as previsões de uma safra mundial recorde de 85 milhões de toneladas, contra 79,0 milhões de toneladas em 1974, ontem anunciadas pelos EUA. Desta vez, a estimativa norte-americana não representa uma manobra destinada a derrubar os preços mundiais do produto, como foi feito freqüentemente com a soja, para desestimular a competição do Brasil. As previsões são corretas, e era fácil antever que o mundo obteria este ano – e nos vindouros – uma produção recorde de açúcar. Por quê? Porque a “manobra foi feita” em 1974, com o auxílio do chamado “terrorismo estatístico”, que vem imperando nas análises dos problemas da economia mundial, e do qual os países industrializados têm sabido tirar proveito.

No ano passado, a seca em algumas regiões da África, trazendo a ameaça de morte para milhões de pessoas por inanição, ressuscitou o debate em torno da produção mundial de alimentos. Equivocadamente, até a ONU, através da FAO, ajudou a política de “marketing” dos EUA na venda de seus cereais, com a divulgação de um noticiário constante, diário, sobre a “escassez” mundial de alimentos, quando o óbvio é que existem distorções na comercialização, tanto que periodicamente sobram “excedentes” de carne, leite, soja, frutas no mundo todo.

Em meio a esta atoarda, os EUA anunciaram também uma seca, e previram quebras gigantescas em suas safras de soja, milho e trigo, para, no final do ano, ao menos em relação ao trigo, obter uma safra recorde, “descoberta” só no final da colheita. Em relação ao açúcar, proclamava-se também a quebra de safras, a “escassez” - e os preços dispararam, chegando à casa dos 1.500 dólares no último trimestre do ano, contra 300 no primeiro. A “disparada” era totalmente descabida: para uma produção mundial em torno de 80,0 milhões de toneladas, previa-se um consumo de menos de 80 milhões de toneladas, com um “déficit” ridículo, inferior a 1,0 milhão de toneladas, que poderia perfeitamente ser coberto pelos estoques da ordem de 15,0 milhões de toneladas existentes no mundo.

A ALTA ESTIMULADA
Por que os EUA e os demais países industrializados permitiram a alta artificial, quando conheciam também as mecânicas da manipulação estatística para “puxar” e “derrubar” cotações? Se eles não foram os autores da “disparada” dos preços do açúcar, estavam, quando nada, profundamente interessados em que ela ocorresse. Por paradoxal que pareça, a estratégia era firmemente fundamentada: com a alta de preços, sabia-se, haveria uma “corrida” para o plantio de cana e beterraba em todo o mundo – inclusive nos próprios EUA e países industrializados da Europa. Assim, pagava-se um preço mais alto em 1974, mas garantia-se a queda dos preços do produto, para os anos vindouros. Como está ocorrendo agora, com o anúncio de safras recordes.

O PREÇO PAGO
A certa altura, a “grande” inflação norte-americana no ano passado deveu-se, em grande parte, à disparada dos preços do açúcar. Por quê? O governo norte-americano permitiu que o preço do produto refinado internamente fosse elevado aos mesmos preços do mercado mundial, isto é, quintuplicassem. O resultado não se fez esperar: lucros imensos para a agroindústria, que, evidentemente, deu início a planos imediatos de aumento de sua produção. Um avanço do qual não haverá recuo: mesmo que as cotações mundiais caiam, tanto o governo dos EUA como do Mercado Comum Europeu continuarão estabelecendo preços mais altos, como sempre houve, para o açúcar produzido internamente, assegurando-se a rentabilidade das usinas – defendida, ainda, por mecanismos protecionistas.

Além de ampliar sua própria produção, os países industrializados estimularam, ainda, ambiciosos planos para a expansão da agroindústria canavieira em países da África, América Latina e América Central. Assegurando, agora, a super-oferta.

A SOLUÇÃO EQUIVOCADA
Para o Brasil, o declínio nas cotações de açúcar vai representar novo problema de perda de divisas, ao menos no curto prazo. Pode-se prever, assim, que servirá para reforçar as correntes de opinião que concentram suas barreiras em um só alvo: a seriedade do problema da balança comercial brasileira. E que só recomendam duas saídas para contorná-lo: autorização para que empresas estrangeiras explorem o petróleo nacional, para reduzir o volume de importações de combustível, e “abertura” de outros setores, que se tenta preservar sob controle de empresas nacionais, para o capital estrangeiro. Na verdade, o problema do governo brasileiro é, ainda uma vez, de “correr contra o tempo”.

A médio prazo, a situação mundial do mercado de açúcar poderá provocar danos limitados à economia brasileira (sem necessidade de “sacrificar” o monopólio estatal do petróleo, ou desnacionalizar novos setores). Como? Talvez antevendo as novas perspectivas do mercado mundial do açúcar, o governo, já há alguns meses, estabeleceu normas e incentivos para a produção de álcool anidro no país – embora o assunto só agora tenha ganho as manchetes.

...O que isto significa? Que, diante de um mercado mundial fraco, o Brasil passará a usar sua cana para produzir álcool, com dois objetivos: assegurar a rentabilidade de sua agroindústria, e economizar dólares, já que o álcool, usado no combustível, substituirá as importações de petróleo. Os dólares que o Brasil deixar de ganhar com as exportações de açúcar, vai “ganhar” (não gastando) com a economia de petróleo.

Resta saber se o pessimismo imediatista em torno da balança comercial deixará margem para a compreensão dessa possibilidade.



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