Revista Visão , quarta-feira 10 de junho de 1992
O ministro Marcílio Marques Moreira não é, certamente, um adepto dos holofotes. Não costuma disparar frases de efeito. Não avaliza pacotes ou baixa sucessivas medidas de emergência. Não apregoa milagres e não inventa esquemas salvadores de última hora. Também não posa de czar, como muitos de seus antecessores. É, isso sim, um circunspecto senhor de voz pausada e gestos contidos. O exemplo acabado da discrição e da sobriedade. Alguém mais afeito ao figurino de países sisudos e estáveis como a Suíça, por exemplo. No entanto, hoje ele é, sem dúvida, a figura mais destacada do ministério do presidente Collor. Cercado pela mídia, embora distando do estardalhaço federal, é cortejado por adversários e admiradores. Tem passado ao largo de sucessivos torpedeamentos e deixa transparecer alguma das razões de sua sólida reputação: a vontade obstinada de derrubar a inflação sem milagres, a recusa em fazer alianças casuísticas e arriscadas, a firme convicção nas vantagens da economia de mercado. O modelo tem seu lado obscuro, como o custo social para trabalhadores e aposentados, apenas para citar o mais cruel. Mas não será abandonado por Marcílio enquanto ele comandar uma das mais surpreendentes e confusas economias do mundo. É o que o ministro revela ao diretor de Redação, Aloysio Biondi, na entrevista que abre o novo caderno – Visão Econômica – que estréia nesta edição. Nele, você encontra também uma análise sobre a situação atual da proposta para privatizar os portos no Brasil. Há quem anuncia derramamento de sangue. E recebe, ainda, uma ampla gama de informações sobre negócios, administração de empresas, mercado de ações, marketing etc. Veja e forme sua opinião. Mas, se a economia atravessa momentos de relativa calmaria, o mesmo não se pode dizer do Congresso Nacional, alvoroçado pela constituição da CPI sobre as denúncias do irmão caçula do presidente, Pedro Collor. Ela vai acabar bem? Para que serve uma CPI? É o que mostramos na reportagem que começa na página 8. E, enquanto os políticos debatem a CPI, o presidente e sua corte mudam para o Rio de Janeiro, palco da maior conferência de cúpula jamais realizada até hoje: a Rio-92. Ela termina no próximo dia 14 e começou sob a égide da cizânia entre ricos e pobres em relação a questões ambientais. Como estava previsto, aliás.
(Acompanhe na página 56.)