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  A CEF, com aliados no Congresso?

Revista da Fenae , abril de 1999


Esta notícia você viu: o presidente FHC suspendeu temporariamente o processo de privatização das empresas geradoras de energia elétrica, ligadas à Eletrobrás. Mas esta outra notícia você não viu: o presidente FHC foi forçado a tomar a decisão, por não ter condições de recusar o "pedido" que lhe havia sido feito por todas as lideranças partidárias do Congresso Nacional. É isso mesmo, você leu direito, sim: foram "todos" os partidos, unanimemente. É óbvio que a iniciativa surgiu como consequencia do blecaute prolongado que atingiu o país. Há quem suspeite que o "apagão" tenha sido planejado e maquiavelicamente excetuado pelos próprios interessados na privatização. Aquele negócio de provocar o blecaute e depois sair dizendo nos jornais e TV: "estão vendo? É preciso privatizar, para o sistema não entrar em colapso e obter novos investimentos".

Se a hipótese é correta, o tiro saiu pela culatra. Pela primeira vez nestes anos todos, até os partidos governistas se estomagaram e chegaram à conclusão de que "há algo de podre" nas privatizações brasileiras. Uma conclusão, ainda por cima, reforçada pelo catastrófico desempenho da espanhola Telefônica em São Paulo... Por que você não tomou conhecimento da "reviravolta"? Porque, mais uma vez, ela foi totalmente escondida pelos menos de comunicação: os raros jornais que a noticiaram não lhe deram nenhum destaque, preferindo dedicar-lhe poucas linhas, perdidas no meio de extensos textos. O mesmo tratamento foi dispensado pelos meios de comunicação a outro fato significativo, ocorrido igualmente em meados de março: mais de 300 prefeitos paulistas promoveram manifestação diante do Palácio do Governo, em São Paulo, para encaminhar ao governador Mário Covas um pedido de suspensão do processo de privatização do Banespa.

Mudanças no cenário

Há mudanças, portanto, no comportamento passivo com que a sociedade vinha assistindo à venda das estatais. Apenas os meios de comunicação mantêm o seu comportamento vergonhosamente conivente e faccioso diante das aberrações da privatização. Se você juntar os dois dados, chegará a conclusão de que, a esta altura, os movimentos sindicais que desejam preservar estatatais, como a Caixa Econômica Federal, devem criar canais de comunicação efetivos permanentes, com o Congresso Nacional: não basta enviar panfletos ou boletins aos congressistas. Neste momento, em que eles mostram mais receptivas, vale até organizar reuniões, com bancada por bancada, para apresentar os argumentos em defesa da CEF. Já em relação aos prefeitos, o caminho aparentemente mais viável é a "associação" com os movimentos sindicais que atuam em cada estado para salvar os bancos oficiais locais. E a imprensa? Aparentemente, ela abre espaço aos movimentos dos trabalhadores quando eles "criam fatos", como o MST.

Turbulência, ainda

A rediscussão das privatizações da CEF e bancos estatais obviamente está sendo favorecida pelas dimensões da crise econômica, que levou a população a sentir-se enganada pelo presidente FHC, e por isso mesmo a colocar em dúvida os dogmas neoliberais dos anos recentes. Não há possibilidade de reversão desse quadro a curto prazo. Os cortes no orçamento, devorado pelos juros (previsão de gastos de R$ 130 bilhões neste ano, contra os já altíssimos R$ 42 bilhões de dois anos atrás), estão aprofundando a destruição de serviços e obras na área social. Uma realidade que os meios de comunicação também procuram esconder, mas que aflige e inquieta a população de menor renda. Ela anula as vantagens políticas que o governo poderia extrair do fato de a inflação não ter explodido - graças à recessão, a exatamente como esta coluna previu na edição anterior... E, enquanto isso, outros problemas persistem, capazes de preocupar banqueiros e investidores internacionais: apesar da desvalorização do real, as exportações não aumentaram nem as importações caíram, na escala sonhada pelo governo como esta coluna também previu, resultado: a balança comercial voltou a apresentar saldos negativos em março, e a melhora nos resultados a partir de abril, com as exportações das novas safras, não será suficiente para convencer os credores de que o Brasil resolveu o problema do "rombo" externo. A fase de turbulência para o real ainda não foi sequer superada.



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