Jornal Folha de S.Paulo , domingo 1º de novembro de 1981
Crise em alguns setores não impede um crescimento mais ordenado
Segundo o Clube dos Diretores Lojistas de São Paulo, as vendas do "ramo mole". Isto é, bens de consumo não duráveis (calçados, tecidos, vestuário) apresentaram um crescimento real de 4% até agosto, dando novo salto em setembro, que levou a um avanço acumulado de 10% nos nove primeiros meses do ano em termos reais, isto é, já descontada a "alta de preços". Também os supermercados venderam 15% a mais em setembro, em relação a agosto, enquanto as lojas de departamentos (grandes magazines) acusavam aumento real de 18% em seu faturamento no mesmo mês, segundo a Federação do Comércio de São Paulo. O desemprego, finalmente, caiu em todas as regiões metropolitanas — já em setembro, segundo dados do IBGE. Diante desses dados, como explicar o pessimismo ainda predominante nos pronunciamentos empresariais, estendendo-se à opinião pública? Aparentemente, o grande equívoco que vem marcando o debate econômico brasileiro, nos últimos meses, é representado pela expectativa generalizada de que "as coisas voltem a ser como antes", isto é, como em 80 ou em 79. Em outras palavras, insiste-se em comparar as estatísticas de produção, vendas ou emprego com os resultados de anos anteriores e aí se chega à conclusão óbvia de que continua a haver violenta queda, em relação a 80, para setores como a indústria automobilística ou de eletrodomésticos (a "crise" neste setor, a propósito, deve ser melhor analisada, pois ela não tem as características que os empresários afirmavam). Quem continuar medindo os problemas da economia brasileira por esses padrões "antigos", continuará tendo motivos para ser pessimista. A verdade é que tão cedo aqueles setores não voltarão ao seu desempenho antigo. Como é verdade, também, que outros setores da economia — e outras regiões do País — tendem a apresentar taxas de crescimento acelerado, nem sempre medidas fielmente nos levantamentos estatísticos. O ministro Delfim Neto fez o PIB crescer, no inicio dos anos 70, através de uma estratégia deliberada de concentração da renda em todos os níveis: o aumento dos lucros das empresas através do "arrocho salarial" e de subsídios e incentivos (às custas do Tesouro, isto é, da população); a concentração dos investimentos federais em São Paulo e no Sul/Sudeste, beneficiando a renda de sua população em detrimento dos milhões de marginalizados de outras regiões, foram apenas algumas das táticas que usou, para engordar rapidamente as estatísticas, e o PIB. Hoje, por uma ironia da História, o ministro detém novamente o poder num momento em que, a despeito das suas novas tentativas para impedi-lo, há alterações no perfil da renda, inclusive entre as diversas regiões do País. A ironia é dupla, porque essas alterações se processam até contra a vontade do ministro, que tenta torpedear alguns de seus instrumentos mais evidentes, como é o caso da política salarial, responsável pela melhora do poder aquisitivo das faixas de ganhos mais baixos. É também uma ironia da História o fato de as elites pensantes, defensoras da distribuição da renda para formação de um grande mercado consumidor no País à época do debate "mercado interno vs. modelo exportador", não se terem apercebido dessas mudanças, cujos efeitos estão claramente refletidos no aumento das vendas do ramo mole, este ano — pois elas atendem às duas propostas. Além dos efeitos da política salarial, ignora-se totalmente a importância de alterações ocorridas na política agrícola, como os limites na concessão de crédito ao grande produtor, para sobrar recursos destinados a maior número de pequenos produtores — uma desconcentração implantada por iniciativa do ex-ministro Rischbieter, apesar da oposição do ministro do Planejamento. Na mesma área agrícola, adotou-se este ano, uma inovação que atuará decisivamente na defesa (logo, no aumento) da renda do agricultor, a saber, a "correção monetária", mês a mês, de outubro até a época da colheita, dos preços mínimos que o governo deverá pagar ao produtor, na compra de suas safras (até 80, os preços eram fixados à época do plantio, em julho/agosto, e seu valor ia sendo devorado pela inflação até a época de comercialização da colheita em março do ano seguinte). Uma orientação que, se mantida, criará excedentes exportáveis, além de contribuir para a elevação gradativa da renda no interior, ampliando também o mercado para os bens de consumo não-duráveis, numa primeira etapa. Outros fenômenos de igual efeito — como as grandes obras públicas, programas de reflorestamento e mineração, minissiderúrgicas, abertura de fronteiras agrícolas fora do Sul/Sudeste, Proalcool – estão também em cena. Mas são ignorados pelas análises que medem a "saúde" da economia brasileira a partir dos índices de produção dos setores que eram considerados os seus carros-chefes. Pode-se dizer que por força da política salarial, da política agrícola, da desconcentração da economia e da crise cambial (que exige a redução na produção dos setores dependentes de importações) o Brasil tem hoje a chance de retomar o caminho perdido à época do "milagre". Isto é, a chance de crescer "de baixo para cima", através do aumento da renda das regiões e das faixas da população mais pobres, com o aumento, numa primeira etapa, na demanda e produção dos bens de consumo de massa. Para somente depois, ao longo dos anos, chegar-se aos bens de consumo duráveis mais caros, e hoje dependentes de importações para sua produção. É a chance de crescer redistribuindo a renda, reduzindo as desigualdades sociais e regionais — e sem aumentar a dívida externa, que tem colocado o Brasil nas mãos dos credores internacionais. Basta ver os contratos assinados pelo ministro Delfim Neto, nesta sua viagem à Europa.