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  Nós, o Congresso e o BC

Jornal Diário Popular , dezembro de 1999


A CPI dos Bancos chegou a conclusões terríveis sobre a cumplicidade da alta cúpula do Banco Central com banqueiros e especuladores do mercado financeiro. O relatório da CPI foi divulgado há uns quinze dias, mostrando que essa cumplicidade permite as remessas de dólares, a sonegação de impostos, a lavagem de dinheiro e, conseqüentemente, os negócios do narcotráfico. Mostrou ainda, e particular, que o “socorro” do governo FHC aos banqueiros custou R$ 43 bilhões, ou praticamente o dobro da cifra, já astronômica, que o Banco Central e o Ministério da Fazenda vinham divulgado.

Bilhões, Bilhões. Dezenas e dezenas de bilhões, provocando um rombo monstruoso no Tesouro. Apesar do valor espantoso, a notícia não mereceu uma linha sequer na primeira página de um jornalão, um dia depois, dava a seguinte manchete na sua capa: “Descobertas aposentadorias fraudulentas no BC”. O que a notícia dizia? Que uma quadrilha falsificava documentos, como atestados, mostrando que funcionários públicos tinham começado a trabalhar muito antes da data em que eles realmente haviam assumido seus cargos. E, assim, eles conseguiam se aposentar antes do prazo normal.

Você deve pensar a esta altura: se esse caso foi parar na manchete principal de um jornal grande, deve envolver milhares de casos, representar um rombo gigantesco para a Previdência, merecendo o destaque. Certo? Errado. A fraude beneficiou apenas 16 funcionários do Banco Central. Veja bem: o jornalão esconde, não dá uma linha em sua primeira página sobre as fraudes do sistema financeiro, que envolvem dezenas de bilhões de reais, com a cumplicidade do BC. E o mesmo jornalão dá manchete a uma falsificação envolvendo apenas 16 pessoas, uma falsificação condenável como qualquer outro crime, mas proporcionalmente ridícula.

Como entender esses critérios? Um outro detalhe pode ajudar você a chegar a novas conclusões. A própria notícia sobre as aposentadoria diz que, no total, quadrilha beneficiou 50 funcionários, e somente 16 do Banco Central, por que o jornalão fala exatamente neles, na manchete? A resposta é simples: os jornalistas e donos de jornal sabem que são as manchetes que impressionam o leitor, ficam na memória das pessoas – muito mais, é óbvio, de que notícias escondidas nas páginas internas do jornal.

Assim, ao colocar as “fraudes dos funcionários do Banco Central” em sua manchete, o jornalão tinha um objetivo: desmoralizar todo o funcionamento do Banco Central, perante a sociedade. Por quê? Porque são eles que vêm protestando contra a cumplicidade da alta cúpula do Banco Central com os crimes do mercado financeiro, agora comprovadas pelo Congresso através de CPI. É o que se verá amanhã.



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