Revista Bundas , terça-feira 29 de junho de 1999
Não é pra rir, não. Saiu no título de um jornalão paulista: "China cresce só 7,8%". Por que raios o jornalão usou esse só incompreensível, já que uma taxa de crescimento de 7,8% é fantástica, representa quatro vezes os níveis que os países ricos da Europa conseguem, e é o dobro do ritmo alcançado (e que vai cair) pela economia dos EUA? É que a imprensa brasileira anda literalmente possuída por uma demoníaca obsessão de informar corretamente e acontece que, no caso da China, o governo de Pequim previa um crescimento de 8% para 1998 e, como houve um fracasso retumbante, com incríveis 0,2% abaixo da meta, nenhum jornalista preocupado com o leitor poderia deixar de chamar a atenção para o insucesso. Falando sério: o brasileiro que consome o noticiário dos jornais, rádio e TV não descobriu, ainda, que está sendo vítima de uma incrível manipulação ideológica, uma guerra de informação e contra-informação digna dos tempos da Guerra Fria. Jogo pesado, em que entram artigos, reportagens, análises fornecidas por agências de notícias internacionais ou jornais como o Wall Street norte-americano ou a outrora respeitável revista inglesa The Economist (responsável por vergonhosa reportagem sobre um hipotético desastre econômico na China, há poucos meses). Exemplos dessa nova lavagem cerebral não faltam. Durante meses, o noticiário teleguiado martelou a "crise do Japão", sua economia estagnada - e só agora, em meados de junho, surge a informação de que a economia japonesa voltou a crescer (1,9%), no primeiro trimestre... E a Rússia, o que está acontecendo na Rússia?
O leitor que se segure na cadeira para não cair: já no último trimestre do ano passado, pouco depois da "moratória" decretada a 19 de agosto, quando todo o noticiário falava de catástrofes inomináveis, a Rússia acumulava um saldo positivo (exportações menos importações) de nada menos de 9 bilhões de dólares, totalizando 14 bilhões de dólares no ano - e chegando aos 19 bilhões de dólares em 12 meses, até fevereiro último. Recuperação cuidadosamente escondida, da mesma forma que se escondeu durante meses a reação da economia da Coréia do Sul e de outros países asiáticos. A nova Guerra Fria e sua "lavagem cerebral" dividiram o mundo em dois blocos: de um lado, os países emergentes e os ex-socialistas são apresentados como “quebrados", incompetentes e, claro, vítimas da sua própria corrupção (como se os banqueiros e empresas multinacionais não participassem ou fossem os seus principais agentes); de outro, surgem os EUA como uma economia fulgurante, batendo recordes sobre recordes, impulsionada por uma prosperidade sem limites. O objetivo dessa manipulação? Fazer acreditar que, fora dos EUA - apresentado como "salvador" e ídolo a reverenciar - não há salvação. Ou, mais claramente, fora do neoliberalismo, representado pelos EUA, não há salvação.
A lavagem cerebral esconde que os EUA estão sofrendo rombos cada vez maiores em sua balança comercial, com as importações superando as exportações em acachapantes 20 bilhões de dólares, em um único mês, em março último, ou algo como 240 bilhões de dólares em um ano. Com isso, os EUA vêm acumulando uma dívida fantástica com o resto do mundo, caminhando para uma situação cada vez mais insustentável para o dólar. É por isso que os juros exigidos pelos compradores de títulos do governo norte-americano estão subindo - e não por causa do presidente do Banco Central dos EUA, Mr. Greenspan.
Para quem pensa que essa análise é "coisa das esquerdas": na semana passada, o BIS, espécie de banco central dos bancos centrais, maior autoridade monetária mundial, divulgou relatório mostrando que, por causa de sua dívida externa e dos tombos da balança comercial, os EUA deveriam desvalorizar o dólar em 26%, em relação às moedas européias, e 13% em relação ao iene. Isto é: o próximo terremoto financeiro internacional vai ter os EUA como epicentro. Detalhe: os problemas dos EUA se agravarão com a alta, de nada menos de 80%, nos preços internacionais do petróleo, de 10 para 18 dólares. Por suas conseqüências para os EUA, essa alta é o fato econômico mais importante do ano. Foi cuidadosamente escondida pela imprensa pátria, dentro da nova Guerra Fria. E viva o neoliberalismo. E a imprensa que o serve.
A MORTE DA ALMA NACIONAL
Reverencialmente, peço licença ao mestre Celso Furtado para repeti-lo: “Nunca estivemos tão longe do país com que sonhamos um dia”.
Uma pequena frase. Capaz, porém, de detonar um turbilhão de lembranças, das emoções e expectativas, dos dias em que o Brasil era um país e tinha sonhos. Um povo que sonhava virar Povo. Estudantes, intelectuais, empresários, trabalhadores, agricultores, classe média envolvidos no debate pelo desenvolvimento, conscientes, todos, de que havia um preço a pagar, resistências a enfrentar. Inimigos, interesses externos a vencer. Um país com alma, sonhos. Durante 40 anos, 45 anos, houve crises de todos os tipos. Mas havia o amanhã, a promessa do amanhã. A busca do amanhã. Um lugar no mundo. Na década de 50, com a economia resumida praticamente ao café, açúcar, algodão e outros produtos agrícolas, o país lançou-se à loucura de buscar a industrialização. Sem dólares para importar máquinas e equipamentos, pois os preços dos produtos agrícolas estavam de lastros no mercado mundial, estrangulando países pobres como o Brasil. Mesmo assim, o país ousou. Era a época em que os intelectuais e formadores de opinião escreviam livros, artigos, teses sobre e contra as políticas de estrangulamento que os países ricos impunham a países como o Brasil. Ou faziam músicas, peças teatrais, filmes sobre a realidade brasileira. Reforçavam a alma brasileira. O sonho realizável. Será que dona Ruth Cardoso se lembra disso? Chegou a década de 60, e com ela o golpe militar inspirado pelos EUA, desvios de rota que, no entanto, não conseguiram enterrar de vez os sonhos de construção de um país... A alma nacional resistia. Veio a crise do petróleo, no começo dos anos 70, e o país, que produzia 130 mil barris por dia, mergulhou novamente no abismo da falta de dólares, na recessão, no avanço da miséria. Um país “quebrado”, com total falta de dólares, mas que insistia em sonhar com um amanhã.
Em nome desse sonho, novamente, a população pagou a conta. O governo contraiu dívidas fabulosas, criou impostos, apertou o cinto e o crânio dos brasileiros, para canalizar o dinheiro disponível, dos impostos ou empréstimos, para montar indústrias capazes de fornecer produtos que ainda eram importados, de aço a alumínio, de celulose a petroquímicos, de máquinas a sistemas de telecomunicações. Substituir importações para economizar dólares, necessários para a compra do petróleo, ainda não descoberto em grande escala no território brasileiro. Para atender a todas essas novas indústrias, era preciso também construir usinas, as Itaipus, rodovias, ferrovias (o Brasil chegou a produzir 5.000 vagões por ano, com encomendas do governo), sistemas de telecomunicações. Mais aperto de cinto, mais impostos, menos dinheiro para as questões sociais, nunca esquecidas nem mesmo nos debates e escritos dos economistas, ou de empresários. Mas havia a esperança do amanhã. O sonho, de que fala mestre Furtado, de um país economicamente forte, exatamente por dispor de todos os recursos naturais para isso, mas também capaz, ao atingir esse estágio, de maior justiça social, de extinção da miséria. Habitado por um Povo. Orgulhoso de si. Solidário, porque se reconhecendo no outro.
No começo dos anos 90, o sonho estava ao alcance da mão, o amanhã chegava. O Brasil conquistara uma posição entre as dez maiores economias do mundo. Melhor ainda: o Brasil nadava em dólares, porque era capaz de realizar exportações muito maiores do que as importações. Poucos se lembram disso hoje, mas o Brasil tinha um dos maiores saldos comerciais positivos (exportações menos importações) do mundo, na casa dos 10 a 15 bilhões de dólares por ano. Tinha dólares seus, não precisava mais de empréstimos ou de capital das multinacionais para realizar investimentos e manter a economia em expansão, para criação de empregos e solução dos problemas do seu povo. Foi ontem, e está tudo tão distante. A serviço de outros países, o governo escancarou o mercado às importações e às multinacionais. Feiticeiros malditos transformaram o saldo positivo da balança comercial em um “rombo” permanente, deram vantagens na cobrança de impostos sobre a remessa de juros e de lucros estimulando o envio de dólares para o exterior, elevaram os juros para cobrir os rombos criados, “quebraram” assim a União, Estados, Municípios. Destruíram a indústria e a agricultura. Em cinco ou seis anos, clones malditos dos intelectuais de ontem destruíram o que havia sido construído ao longo de décadas. Destruíram mais. Destruíram o sonho, a Alma Nacional. O que somos hoje? Um quintal dos países ricos? Não. Somos um curral. Bovinos ruminando babosamente enquanto o vizinho do lado, o trabalhador, o funcionário público, o aposentado, o agricultor, o empresário, todos, um a um, são arrastados para o grande matadouro em que o país se transformou, com suas mil formas de abate como o desemprego, os cortes na aposentadoria, as falsas reformas do funcionalismo, a falência, as importações. Bovinos ruminando no curral, enquanto empresas de todos os portes são engolidas por grupos estrangeiros e até o petróleo, ou os campos mais fabulosos de petróleo do mundo, com poços capazes de produzir 10.000 (dez mil) barris por dia, em um único poço, são entregues a preço simbólico às multinacionais.
Em cinco anos, o governo Fernando Henrique Cardoso não destruiu apenas a economia nacional, tornando-a dependente do exterior. Seu crime mais hediondo foi destruir a Alma Nacional, o sonho coletivo. Para isso, e com a ajuda dos meios de comunicação, jogou o consumidor contra os empresários nacionais, “esses aproveitadores”; o contribuinte contra os funcionários públicos, “esses marajás”; o pobre contra os agricultores, “esses caloteiros”; a opinião pública contra os aposentados, ”esses vagabundos”. No governo FHC, o brasileiro foi levado a esquecer que, em qualquer país do mundo, a sociedade só pode funcionar com base em objetivos que atendam aos interesses, necessidades de todos – ou, mais claramente, não se pode por exemplo ter uma política de importação indiscriminada, a pretexto de beneficiar o consumidor, sem provocar desemprego e quebra de empresas. Ou, a longo prazo, desemprego generalizado.
Com o jogo perverso de estimular a busca de pretensas vantagens individuais, o governo FHC destruiu a busca de objetivos coletivos. Destruiu a Alma Nacional, o Projeto Nacional. A violenta desnacionalização sofrida pelo Brasil, em sua economia, vai eternizar a remessa de lucros, dividendos, juros para o exterior. Isto é, vai torná-lo totalmente dependente da boa vontade dos governos de países ricos em fornecer dólares e, portanto, de ordens e autorizações desses governos de países ricos. Uma espécie de colônia, mesmo, como alertou o economista Celso Furtado em palestra que ele encerrou com sua frase, arrasadora para quem viveu o Brasil de 50 para cá, “nunca estivemos tão distante do Brasil com que um dia sonhamos”. Mesmo sem tê-lo consultado a respeito, uma sugestão: escreva a frase de Furtado em um pedaço de papel, e a releia todos os dias. Ou faça decalques com ela. Sugira que seus amigos façam o mesmo.
E comece a agir. Ainda há tempo de ressuscitar a Alma Nacional, antes que o Brasil vire colônia.