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  O mês do "tecnocrata desamparado"

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 11 de julho de 1982


O Brasil já teve o "Ano da Criança", o "Ano do Deficiente", o "Ano dos Idosos". Na semana passada, o Brasil inaugurou o "Mês do Tecnocrata Desamparado". A disparada da inflação, que qualquer dona de casa ou consumidor conhecia desde o começo do ano, levou o Planejamento a buscar rapidamente uma solução para o (seu próprio) problema:

— O que vamos fazer? Xingar não adianta mais: já xingamos o Congresso, os políticos, os trabalhadores, os empresários. Jogar a culpa nos outros? Também não "cola" mais: já falamos dos "árabes", da política salarial, dos cálculos errados dos empresários. Após horas de debate, a solução foi afinal encontrada: a melhor saída era tentar conquistar a simpatia geral, assumir o papel de coitadinhos, bons mocinhos bem intencionados, vítimas de circunstâncias imprevisíveis:

— Vamos lançar a "Operação Surpresa", bradou o tecnocrata-mor.

— "Operação Surpresa"?

— Exatamente. Vamos dizer, chorosos, que estamos " "surpresos" com a inflação. Que foi um acidente. Que só aconteceu em junho. Que não vai haver mais. Não vamos mais provocar ninguém com desaforos e xingamentos. Vamos tentar provocar, isso sim, a simpatia geral. O brasileiro, vocês sabem, é "ingênuo"... facilmente manipulável...

— Olha que o sr. já está xingando...

— Foi um lapso... Estão vendo? A "Operação Surpresa" não vai ser simples, vamos ter que esconder nossos pensamentos. Mas conseguiremos, conseguiremos. Quem poderá negar solidariedade a um "tecnocrata desamoarado"?

Foi assim que o País começou a ser inundado pela "Operação Surpresa".

Os males que ela está trazendo e pode trazer ao País são incalculáveis: mais uma vez, a opinião pública (e, quem sabe, até o "sistema") está sendo manipulada, convencida de que os problemas econômicos são mesmo in-solúveis, que não há como enfrentá-los, que o problema não é de competência ou incompetência, mas de sorte ou azar. O que é absolutamente falso. A economia brasileira caminha de desastre em desastre por causa da absoluta incapacidade, demonstrada por quem deveria traçar diretrizes, de atacar os problemas reais. Insistindo, ainda por cima, em cometer erros que agravam os problemas.

A incompetência dos tecnocratas já provocou a disparada da inflação. E ela está levando o País para uma crise cambial, para a falta de dólares para pagar compromissos externos, para uma nova e grande recessão. E que todos os dados demonstram.

ERRANDO SEMPRE

Na última semana, os ministros da área econômica, Emane Galvêas e Delfim Neto, reafirmaram que o País vai conseguir realizar exportações maiores que as importações, isto é, vai conseguir um saldo positivo na balança comercial — uma conquista importante para reduzir um pouco o ritmo de crescimento da dívida externa e não perder a confiança dos credores internacionais. Diante dos cálculos que eles apresentaram, realmente se fica sem saber se os ministros estão tentando transmitir um otimismo que não sentem, ou se estão "treinando" para ficar "surpresos" daqui a alguns meses, quando os problemas da dívida estourarem. Pois os cálculos não são de quem tem competência: * Exportações — elas caíram em janeiro, fevereiro, março, abril, maio e junho. A cada mês, a mesma ladainha lecnocrática: não tem importância, é por causa disso-ou-daquilo. Agora, os ministros dizem que elas deverão melhorar no segundo semestre, "porque é sempre assim". Mesmo que fosse "sempre assim", este ano é um ano excepcional, com fatores novos a agravar a crise mundial. Quem detém o poder, quem tem nas mãos os destinos do País, não pode fiar-se em "impressões", para não ter surpresas". Precisa coletar dados, analisar dados e tirar conclusões — competentes.

Os cálculos dos ministros estão esquecendo uma coisa muito simples: no ano passado, as exportações brasileiras cresceram no segundo semestre porque, com a recessão no mercado interno, as empresas começaram, a partir do mês de abril, a fazer grandes esforços para vender lá fora. Houve inclusive acordos entre matrizes e filiais, para um aumento nas exportações. Este ano, o quadro é totalmente diferente, é o inverso: à medida em que o tempo passa, a queda nas exportações tende a aprofundar-se. Tome-se, como exemplo, a indústria automobilística: há apenas dois meses, o presidente de uma das empresas do setor afirmava que exportaria 10% a mais, este ano e, hoje, suas vendas já estão 60% abaixo dos resultados de 81 Ou veja-se o exemplo do minério de ferro, com 31.4 milhões de toneladas exportadas até maio, contra 34,2 milhões em 1981. E assim por diante. Ignorando que as tendências de 1981 e 1982 são exatamente opostas, o ministro Galvêas desenvolve este raciocínio: no primeiro semestre deste ano, as exportações caíram realmente 8,5%. Se nos demais meses do segundo semestre a queda for igual (isto é, de 8,5% sobre 81), exportaremos 21,3 bilhões até o final do ano. Só por "milagre".

* Importações — aqui, os erros de cálculo são os mesmos. O ministro Galvêas diz que alas cairam 13,4% no semestre, e se essa queda for mantida até o final do ano. as importações serão de apenas 19,1 bilhões de dólares. Ora, o ministro sabe muito bem que a queda nas importações sendo cada vez menor, mes a mês — porque a produção industrial subiu e porque, no ano passado, havia estoques de mercadorias importadas que já não existem. Assim, nos quatro primeiros meses do ano a queda fora de 16%. No fim de seis meses ela se reduziu para 13,4%. Com um detalhe: em junho, as compras externas foram apenas 8,6% menores que em 1981. O ministro sabe disso, mas diz que "foi um acidente’’, e que o nível de queda vai voltar para 13,4%. Da mesma forma que, desde o começo do ano, quando a inflação já estava em alta, os tecnocratas de Brasília, sem exceção, davam declarações otimistas e diziam que ela voltaria a cair. O País não pode caminhar para uma crise cambial, que lhe custará um alto preço, por erros nos cálculos de seus tenocratas. Basta de "surpresas" previsíveis, como ocorreu com a inflação.



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