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Jornal Diário da Manhã , domingo 11 de dezembro de 1983


ARMADILHA – a Associação Brasileira das Indústrias de óleos Vegetais quer que o governo libere totalmente as exportações de óleo de soja no primeiro semestre do ano que vem – isto é, sem reservar nenhum estoque do produto para o mercado interno. Argumento das indústrias: o Brasil poderia exportar a preços mais altos, no primeiro semestre, e depois importar a preços mais baixos, no segundo semestre (a safra norte-americana começa a ser comercializada em outubro: teoricamente, as cotações deveriam cair, no mercado mundial, com a entrada do produto dos EUA nessa época). O argumento é muito atraente. Só que a Abiove está omitindo um dado: tradicionalmente, os EUA “manipulam” o mercado internacional da soja e do óleo de soja. Quando chega a época da safra brasileira e argentina (a partir de março), os EUA divulgam estimativas ultra-otimistas sobre o plantio em seu território, derrubando os preços internacionais, para que o Brasil venda seu óleo mais barato. Objetivo? Reduzir a rentabilidade do produtor brasileiro, tentando desestimulá-lo a continuar plantando soja, deixando os norte-americanos sozinhos no mercado, a médio prazo. Inversamente, no segundo semestre, a medida em que se aproxima a época de comercializar o óleo de soja norte-americano, os EUA fazem previsões pessimistas sobre sua safra, inventam secas, invernos, chuvas desastrosas (especialidade, no Brasil, desenvolvida pelos lavradores gaúchos) – para os preços subirem, e os produtores norte-americanos realizarem maiores lucros.

SÓ INGENUIDADE? – em poucas palavras: tradicionalmente, no primeiro semestre, os preços da soja e do óleo caem, para subir no segundo semestre, não interessando no Brasil vender tudo na primeira metade do ano. A Abiove não sabe disso? Claro que sabe. Sua proposta cheira a “armadilha”: a intenção é exportar, mesmo a preços baixos, para depois alegar falta do óleo e vender a preços escorchantes – aqui dentro. Exatamente o que as indústrias de óleo fizeram este ano, apresentando aumentos de até 1.600% em seus lucros, como foi o caso da multinacional Anderson Clayton, ou da Granóleo, que em um semestre teve um lucro equivalente ao dobro do seu capital. Detalhe: o óleo de soja, no Brasil, continua a custar até 60% a mais do que no mercado internacional.



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