Revista Bundas , terça-feira 21 de dezembro de 1999
Está todos os dias nos jornais: empresas telefônicas recompram suas ações, energéticas recompram suas ações, siderúrgicas recompram suas ações... O que isto vai provocar na vida dos brasileiros comuns? O que isso vai trazer para o país? Resposta: o atoleiro final. O extermínio do povo brasileiro. A menos, é claro, que o Congresso acorde – e imponha limites à ação do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em português claro, qual o significado dessas “recompras de ações”? Como sempre, é muito simples. Os grupos multinacionais, nos “leilões de privatização”, na verdade compraram só l5%, 20%, 30% das ações das antigas estatais, isto é, passaram a ser donos somente de uma “fatia” de l5%, 20%, 30%.
Logicamente, passaram a ter direito, também de “fatias” equivalentes, de l5%, 20%, 30% dos lucros – que remetem, em dólares, para suas matrizes lá fora. Agora, o que está acontecendo? Esses grupos, que “compraram” o direito de mandar nas estatais, estão fazendo propostas maciças para comprar as ações de milhares, ou dezenas de milhares, de pequenos, médios, grandes acionistas, isto é, cidadãos brasileiros que possuíam essas ações, alguns deles há muitos e muitos anos. Então, é isso: “recompra”, no caso, é apenas uma expressão técnica, ou malandra, para dizer que a empresa, ou o grupo controlador, está comprando “de volta” ações que o público havia adquirido ao longo do tempo. Isso é uma catástrofe, a médio prazo. Um suicídio, a médio prazo. Não há nenhum exagero na afirmação. Basta fazer contas. É preciso fazer contas. O Congresso precisa fazer contas para tirar o País desse caminho suicida. Veja-se bem: as remessas de lucros e dividendos das multinacionais para as matrizes não passavam dos 700 milhões (com m) de dólares, no começo dos anos 90. Com o início da abertura da economia, no governo Collor, elas passaram para a faixa de 2,4 bilhões no começo do mandato de FHC.
Em 1997, já haviam chegado aos 7,0 bilhões de dólares, isto é, triplicado no governo FHC e crescido dez vezes em relação aos valores históricos. Esses números em si já são alarmantes. E, o que é pior, eles deveriam avançar ainda mais explosivamente daqui para a frente, puxados pelo ritmo das privatizações, com as estatais entregues a grupos estrangeiros – e pelo processo de desnacionalização da economia em geral. As perspectivas já eram sombrias, com uma sangria de bilhões de dólares todos os anos, para todo o sempre, colocando o Brasil na posição de colônia obrigada a encher os cofres da Corte, e sujeita a retaliações, sanções quando não conseguisse quitar os compromissos – isto é, sujeito a crises e recessões periódicas. Pois o futuro está ficando ainda mais negro. É uma questão de aritmética, como qualquer criança pode ver: se a situação já era insustentável com remessas de l5%, 20%, 30% dos lucros, o que acontecerá com remessas de 80%, 90%, 100% , como resultado da “recompra” de ações nessa proporção? O governo FHC está cego. Ou não. Ou não. O Congresso precisa intervir, estabelecendo limites para essa desnacionalização das ex-estatais. Além da sangria de dólares, esse processo tem outra conseqüência trágica para o futuro do País: por incrível que pareça, ele agrava a já terrível concentração da renda, ou eterniza a pobreza e a miséria no País, impedindo também o crescimento econômico, criação de empregos etc., em um círculo vicioso interminável. Como assim? Basta olhar o que acontece nos EUA e países ricos em geral: milhões de famílias de classe média e trabalhadores possuem ações, e parte de sua renda vêm dos dividendos pagos por essas empresas, ou mesmo da valorização dessas ações nas Bolsas.
Isto é, a população compartilha dos resultados do funcionamento da economia, dos negócios das empresas. Não custa lembrar que o surto de prosperidade dos EUA é atribuído, em grande parte, ao “enriquecimento” das famílias, nos últimos três anos, em função da alta nas Bolsas, levando o consumidor a um forte consumismo com base nessa “renda extra”. No Brasil, estão ocorrendo o contrário. O povo brasileiro, os milhões de acionistas estão sendo expulsos das empresas construídas com o trabalho nacional. Todas as fontes de produção, todas as fontes de riqueza, estão ficando nas mãos de grupos multinacionais – que, veja-se só a imensa contradição esquecida, têm milhões de acionistas em seus países. Tudo o que está acontecendo no Brasil, no governo FHC, é exatamente o contrário do que ocorre no resto do mundo.
O País está sendo literalmente escravizado pelas Cortes. O povo brasileiro está sendo literalmente escravizado para produzir lucros para os povos dos países ricos. Para não ficar nenhuma dúvida sobre esse relacionamento Corte-Colônia: há três semanas, foi instalada na Espanha uma Bolsa de Valores “especial”, anexa à Bolsa de Valores tradicional. Seu objetivo? Ela vai negociar somente ações de empresas energéticas e telefônicas cujo controle foi “comprado” principalmente por espanhóis e portugueses dentro da “privatização”. É um domínio ostensivo, um escarro em nossas caras: nem as ações das empresas “brasileiras” serão mais negociadas nas Bolsas do Brasil. Também, pra que? Escravo não tem dinheiro para comprar ações, mesmo. Pedido ao Congresso Nacional, ou melhor, a Papai Noel: “Queremos nosso Brasil de volta”.