Jornal Diário Popular , segunda-feira 3 de julho de 2000
Crianças pobres, da periferia, usando alegremente computadores. Adolescentes de famílias humildes, sorridentes, falando sobre os livros que lêem em sua escola. Garotos e meninas fazendo experiências em laboratórios. Idosos da roça explicando orgulhosamente como aprenderam a ler, aos 60, 70, 80 anos. E estatísticas, estatísticas afirmando que no Estado tal não existem crianças fora da escola, e no Estado B essa meta em breve vai ser atingida. Ou estatísticas, estatísticas afirmando que o número de alunos que repetem de ano, que era brutal no Brasil, está caindo graças a um sistema especial, as ‘‘classes de aceleração’’, onde os estudantes têm atenção especial para superar dificuldades e, por isso, conseguem ser promovidos.
Você vê o tempo todo essa propaganda do governo, dizendo que há uma ‘‘revolução na educação’’. É só propaganda. A realidade é bem outra: os filhos dos trabalhadores, os filhos dos pobres, continuam a receber uma educação precária, em escolas precárias — isto é, continuam em desvantagem para ‘‘progredir na vida’’, na comparação com os filhos das famílias ricas. Se você duvida, veja as estatísticas do próprio Ministério da Educação:
Computadores — apenas 4%das escolas do ensino fundamental, da 1ªà 4ª e da 5ªà 8ªséries, dispõem de equipamentos de informática. E, atenção: esse total de 4% divulgado pelo MEC inclui tanto as escolas públicas, do governo, quanto as escolas privadas. Como as escolas particulares obviamente são muito mais informatizadas, na prática as escolas públicas na mesma situação podem ser contadas nos dedos. A propaganda é enganosa.
Livros — somente 25% das escolas, somando-se particulares e públicas, dispõem de biblioteca. A mesma enganação, portanto. Laboratórios — somente 14% têm instalações para o ensino de ciências etc. Idem, idem, ibidem.
Repetência — dos 35 milhões de alunos do ensino fundamental, nada menos de 60% já foram reprovados em alguma série. O governo diz que essa situação está melhorando por causa das classes especiais. Invencionice. As tais classes de aceleração atenderam a apenas 1,2 milhão de alunos em 1998 e 1999 — de um total de 35 milhões... Qualquer pai de família, qualquer mãe sabe muito bem por que a repetência está ‘‘caindo’’: inventaram a promoção automática, ‘‘empurrando’’ os alunos para a série seguinte — ao invés de ensiná-los realmente.
Crianças — segundo o MEC, 96% das crianças em idade escolar (7 a 14 anos) estão matriculadas. Esse número é a ‘‘média nacional’’. No Nordeste, 8% das crianças continuam fora da escola.
Analfabetos — como esta coluna mostrou ontem, o Brasil tem 15,5% de analfabetos acima dos 15 anos. Mais ou menos 15 milhões de brasileiros. No ano passado, o programa Alfabetização Solidária atendeu a só 700 mil. Faltam 14,3 milhões. Eles não aparecem na propaganda da TV. É claro.