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  O Brasil e seu pesadelo econômico

Jornal Gazeta Mercantil , quinta-feira 10 de julho de 1975


A Bahia, terra dos sonhos de centenas de milhares de brasileiros, está participando do pesadelo a que o país foi levado pelas diretrizes da política econômica em anos recentes – e cuja avaliação precisa ser aprofundada. Com dinheiro do imposto de renda, isto é, da coletividade brasileira, foram construídos cinco ou seis hotéis de luxo em Salvador. A oferta de acomodações cresceu em 2.000 ou 3.000 apartamentos. Esse modesto avanço foi o bastante para que, este ano, neste exato momento, a indústria hoteleira baiana entrasse em crise. Não há hospedagem para esses hotéis – ou melhor, para o padrão de diárias cobradas por esses hotéis. A Bahia vive um paradoxo, que é o paradoxo de todos os setores da economia brasileira: centenas de milhares de brasileiros, de classe média evidentemente, gostariam de passar suas férias em Salvador: no entanto, apesar desse potencial turístico, os hotéis estão às moscas e ameaçam falir, se o governo, isto é, se a coletividade brasileira não separar mais alguns milhões de cruzeiros para socorrê-los. Só um país com o raciocínio paralisado por força de teses grandiloqüentes, divulgadas pelos econometristas em anos recentes, não percebe que o “paradoxo” baiano é o “paradoxo” brasileiro, que exige a imediata reciclagem da economia sob pena de crises setoriais de proporções dramáticas. O que aconteceu com a indústria hoteleira baiana (e de outras regiões do país) acontece também com a indústria em geral - embora os próprios empresários demonstrem dificuldades em aceitá-lo e, paradoxalmente ainda uma vez, continuem a acreditar nas virtudes do “modelo” econômico anterior. E a reagir contra as mudanças propostas.

COMO DESTRUIR UM MERCADO
Tanto quanto para os hotéis, a situação da indústria alimentícia é outro exemplo dramático dos descaminhos da economia brasileira. Na euforia dos últimos anos, multiplicaram-se as indústrias produtoras de alimentos “sofisticados”. Em lugar de extratos de tome, o “purê de tomate”. As maioneses prontas. Os supergelados. Os iogurtes. As gelatinas prontas. Os pudins prontos. As saladas de frutas prontas. Hoje, os anúncios de supermercados revelam claramente as dificuldades do setor: a oferta cresceu desmedidadamente, não há mercado consumidor amplo bastante para absorvê-la.

O quadro é pouco diferente em outros setores. Para os têxteis, surgiram os “modismos”, caríssimos os livros (principalmente se forem de um autor com publicidade certa), têm seus preços impostos de acordo com estranhas políticas de “marketing”. Medicamentos que não sejam a simples aspirina costumam custar mais que um dia de salário de um trabalhador que ganhe o mínimo. E assim por diante.

Roupas, medicamentos, comida e livros são bens essenciais, de colocação assegurada – desde que não se tivesse adotado uma política suicida, de montar fábricas e mais fábricas apenas para atender às faixas da população onde a renda foi, deliberadamente, concentrada. Investiu-se maciçamente, em hotéis ou plásticos, para vender a uma minoria. A “superprodução”, a “super-capacidade” era o desfecho inevitável dessa orientação.

UM VERBO A CONJUGAR
O governo está redistribuindo a renda, para ampliar o mercado interno. Mas é evidente que a formação de um “mercado de massas” não será atingido apenas por esse caminho. Um “mercado de massas” será formado, também, quando em lugar de “purês prontos” a indústria, os empresários, descobrirem que podem produzir alimentos populares, em grandes volumes, a preços à altura do poder aquisitivo de milhões de brasileiros. Da mesma forma, oferecer livros baratos, em papel jornal, e não em couché. Roupas populares. Sapatos, igualmente. Hotéis, lanchonetes, divertimentos no mesmo nível. Um “mercado de massas” se forma gradativamente, através da “reciclagem” em todos os setores. As fábricas de sapatos, tecidos, roupas, medicamentos baratos, os hotéis, lanchonetes, divertimentos igualmente pouco dispendiosos terão mercado certo, gerarão emprego, rendas, lucros, isto é, terão um efeito multiplicador sobre a economia, permitindo o crescimento tranqüilo do PIB. Os hotéis e as indústrias milionárias não geram renda, nem empregos, nem lucros - geram crises periódicas, que a coletividade tenta resolver usando recursos que poderiam ser mobilizados para acelerar o desenvolvimento, um processo antropofágico, sobre o qual se silencia. Tanto quanto a redistribuição de renda, a “reciclagem” de atitudes é uma necessidade para o país – e para a classe empresarial em particular.



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