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  A inflação oficial, suavemente estimulada

Jornal Gazeta Mercantil , sábado 13 de setembro de 1975


Não é verdade que a intensificação da inflação brasileira se dava aos feitos das geadas. A explicação é demasiada simplista.Também não é verdade que o novo salto na inflação brasileira se dava à grande “folga” de crédito na economia. A explicação, do agrado dos teóricos monetaristas, é demasiado sofisticada.

Explicações, os interessados dão aquelas que lhes convêm – se o país não tem o hábito de analisar dados. Um exemplo? No ano passado, a Fundação Getúlio Vargas precisou “explicar” a alta de preços para a batata. Versão de seus técnicos: tinha havido demanda excessiva do produto, graças ao aumento do poder aquisitivo do consumidor. A prevalecer essa interpretação, seria a primeira vez na História da Humanidade, que os habitantes de um país, ao se sentirem mais ricos, passaram a comer mais batatas, e não mais carne, leite e outros alimentos fornecedores de proteínas. A causa real da alta de preço das batatas? O óbvio: falta do produto porque, na safra anterior tinha havido “superprodução”, as colheitas encalharam, o produtor não teve preços e abandonou a cultura, na safra seguinte.

Diz-se, no Ministério da Fazenda, e instituições a ele ligadas, que as geadas seriam as responsáveis pelos arranhões na política antiinflacionária do país. Na verdade, as geadas estão servindo, até, de biombo para esconder os pífios resultados na busca da estabilização dos preços, que, já antes de agosto, vinham subindo a um ritmo muito superior às previsões feitas pelo Ministério da Fazenda.

OS DADOS DISSECADOS
A alimentação subiu realmente 4,7% em agosto. Mas ela perdeu para os serviços públicos, com 5,8%, e foi seguida de perto pela habitação, com mais de 3,4%. E, atente-se, a melhor demonstração de que as geadas pouco têm a ver com as altas taxas de inflação que o país acumulou, pode ser encontrada – pelo observador isento – nas taxas acumuladas de custo de vida e inflação para os últimos doze meses, isto é, de agosto a agosto. O que esses dados acumulados revelam? Que, apesar do saldo de 4,7% em agosto, o custo da alimentação não é a culpada pelo resultado de 29,0% de alta de custo de vida nos últimos doze meses. Em ordem decrescente, eis como cada setor contribuiu para a alta:

Habitação – 41,5%; Serviços pessoais – 34,5%; Serviços públicos – 33,5%; Saúde e higiene – 33,5%; Alimentação – 24,7%; Artigos de residência – 19,8%; Vestuário – 13,4%.

Fica claro, assim, que “mesmo com as geadas” a alimentação ocupa um modesto quinto lugar como fator de inflação, e bem distanciado de outros itens.

Pode-se alegar que os custos da alimentação haviam subido excessivamente em 1973, e era natural um ritmo mais lento, a partir de 1974. Realmente, não se deve ignorar que é muito fácil manipular estatísticas, tomando como base, ou ponto de partida, o ano que convenha ao analista. Então para que não pairem dúvidas, veja-se, também em ordem decrescente, os índices acumulados da própria Fundação (agosto 1953/1957 – 100):

Serviços pessoais – 761,7; Serviços públicos – 746,3; Habitação – 728,4; Saúde e higiene – 665,0; Alimentação – 639,4; Artigos de residência – 465,4; Vestuário – 403,0.

Mesmo no longo prazo, portanto, - e depois das geadas, a situação não se modifica; a alimentação continua em quinto lugar, como fator de inflação.

OS CAMINHOS FÁCEIS
A Inglaterra divulgou, na sexta-feira, seu índice de inflação em agosto (medido pelo índice de preços ao consumidor, como é usual nos países industrializados). O resultado dá o que pensar. Uma “economia doente”, numa sociedade tumultuada, como a Grã-Bretanha, conseguiu um aumento de preços de apenas 0,6% em agosto, após o “clímax” de 4,7% em maio. Japão e Itália também conseguiram taxas inflacionárias em torno de 0,5% nos últimos meses, após altas da ordem de 40% (em termos de taxa anual de inflação) em meados do ano passado. E assim por diante.

O problema da inflação brasileira, não é demais repeti-lo, vai ficando cada vez mais grave exatamente à medida em que a inflação mundial declina. A diferença entre as curvas de preços leva, inevitavelmente, à desvalorização do cruzeiro, encarecendo as importações (isto é, realimentando a inflação) e, pior ainda, aumentando brutalmente a dívida externa das empresas brasileiras que se comprometeram maciçamente no exterior (realimentando novamente a inflação, pois, para comprar dólares mais caros, e saldar seus compromissos, as empresas terão que aumentar seus preços, internamente). A própria alta para “serviços públicos”, este ano, decorre, sobretudo, dos reajustes das tarifas de energia elétrica – exatamente porque as concessionárias do setor recorrem largamente a financiamentos externos (como fato extra da alta, há a “equiparação tarifária” entre diversas regiões do país).

Na Inglaterra, nos EUA, no Japão, na Itália, combateu-se a inflação também através da mobilização coletiva. No Brasil, é total a despreocupação com a inflação: divulgam-se os índices, acompanhados de análises superficiais, e o resto é silêncio. Cria-se o clima para a manutenção da inflação, pois tudo que a coletividade recebe é apenas o melancólico reforço da melancólica constatação de que, no Brasil, “tudo sobe”. Por isso mesmo, impera a filosofia do “é preciso aumentar o preço de tudo”, ajudada até por órgãos, como ocorreu com as estimativas de “quebras de safras” em oficiais, virtude das geadas, e que, como era previsto, já estão servindo de pretexto para “lobbies” a favor da ala de preços (do açúcar, sobretudo).

Quando o país vai descobrir que sua economia está sendo devorada pela inflação, e vai tentar combatê-la coletivamente?



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