[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Ah, mas vai melhorar...

Revista Bundas , terça-feira 4 de janeiro de 2000


O recorde do governo Fernando Henrique Cardoso foi batido pelo subministro da Fazenda, o economista Edward Amadeo, há poucos meses. Os dólares estavam fugindo, o Banco Central elevou os juros para atrair capitais especulativos, os repórteres lhe perguntaram: “Isto não vai aumentar a recessão, provocar mais desemprego?”. O então ministro do Trabalho respondeu prontamente: “Não. Ao contrário”. “Mas todo mundo, até do governo, diz que juros mais altos esfriam a economia e reduzem o consumo...”, insistiram os repórteres. “Eu não acho. Acontece que as empresas já estavam inseguras, com a instabilidade do Real. Com a decisão do governo, a falta de confiança desaparece, e as empresas vão voltar a investir, a economia vai crescer, criando empregos...”

Além do seu empenho na destruição da economia nacional, o governo FHC tem como marca registrada a habilidade com que, em um misto de delírio poliânico e deboche arrogante, constrói explicações otimistas prometendo “um futuro radioso”. O próprio FHC, em outubro de 1995,dizia ter vontade de dar gargalhadas quando ouvia alguém falar em recessão. Malan sempre jurou que o crescimento das importações era “temporário” e o “rombo” da balança comercial desapareceria porque as exportações iriam disparar nos anos seguintes, graças às multinacionais. E toda a equipe sempre jurou que o desemprego era localizado, “só em São Paulo”, acenando com o surgimento de novos pólos industriais no Nordeste – versão prontamente difundida aos quatro ventos em reportagens da revista Veja, obviamente.

É com toda essa credibilidade que o governo FHC anuncia a “retomada do crescimento no ano 2000”. Para onde sopram os ventos do Ano Novo, afinal? Em setembro, outubro e novembro, a indústria automobilística vendeu entre 70 e 80 mil veículos por mês, ou menos da metade dos 180 mil que ela colocava no mercado há dois anos atrás. Mesmo assim, os estoques nas fábricas e revendedoras, no início de dezembro, chegava às 400 mil unidades, isto é, cinco meses de vendas, se elas mantiverem o ritmo atual. Mais demissões em perspectiva.

O número de imóveis vazios em São Paulo, à espera de interessados em alugá-los, aproxima-se dos 30 mil, ou quase vinte vezes o total de 1.700 ofertados pelas administradoras, há apenas cinco anos. Menos renda para os proprietários e sua família consumirem. Como há muito menos renda, também, para os trabalhadores da indústria irem às compras, segundo o próprio IBGE, que anunciou uma queda de 10% no total de salários (massa salarial) paga pelo setor até novembro, na comparação com l998.

Quadro que se repete na agricultura, onde foram fechados mais de 400 mil postos de trabalho em 1998, de acordo com o mesmo IBGE, tendência que se manteve em 1999 diante da “falta de mercado” para a laranja e o açúcar. Por todos os lados, provas concretas de que o poder aquisitivo, o poder de compra da população desabou em conseqüência das importações, do “escancaramento do mercado” e (decorrente) recessão, sempre negados pelos Polianas de Brasília, debochadamente cegos a outros fatores de retração do consumo, como o congelamento dos vencimentos do funcionalismo por cinco anos, o “aumento” de 6,00 reais para o salário mínimo, o desemprego alucinado de 20% nas principais capitais, chegando aos 26% a 28% na Salvador de ACM. Um desempregado em cada cinco pessoas. Ou mais de um desempregado em cada quatro pessoas. Como acreditar que o consumo possa crescer, e a economia reagir, diante de todos esses fatores que puxam as vendas para baixo? Para piorar, os preços dos alimentos disparam, o frango dobrou de preço de 1,00 para 2,00 reais o quilo, o custo da cesta básica bate recordes.

Esses preços agrícolas dificilmente sofrerão retrações expressivas, com a chegada das novas colheitas, pois o País não tem estoques de absolutamente nada, como existiam no passado, porque desde l995 o governo FHC deixou de comprar as safras dos produtores. A carestia, portanto, é fruto da des-política agrícola de FHC/Malan/FMI, e não culpa da estiagem. E a carestia, os preços altos para os produtos de consumo obrigatório como alimentos, deixam menos dinheiro disponível para a compra de outros bens e serviços. Menos vendas, mais recessão, mais desemprego.

A esta altura, alguém de Brasília berrará: “Aahhhhhh., mas tem as exportações, elas são uma saída, garantindo aumento na produção”. Repetindo: a economia brasileira foi desnacionalizada, dominada por multinacionais, e as filiais de multinacionais só exportam quando elas deixam, para os mercados que elas deixam. Uma prova? Como visto lá em cima, o mercado brasileiro de automóveis desabou. As montadoras procuraram compensar essa queda, realizando exportações? Ora, por quem sois. Com a desvalorização do Real, os carros brasileiros ficaram mais baratos, em dólar, e poderiam competir lá fora - mas as exportações do setor caíram 40%, quase à metade, porque as filiais estão autorizadas a exportar (quase) exclusivamente para países que também estão em crise, como a Argentina ou a Venezuela. Mais desemprego, mais recessão, mais inquietação social. Não há explicação dos Polianas do Planalto que possam exorcizá-las. Aqui, de nada adiantam as manobras do Fundo Monetário Internacional e países ricos, que voltaram a todo vapor em dezembro, para forçar a alta artificial do Real – e prolongar o governo Fernando Henrique Cardoso até que ele conclua a desnacionalização da economia do País.

Aliás, nem os banqueiros internacionais acreditam nas explicações debochadamente cínicas do presidente FHC, sua equipe e seus aliados: no mês de novembro, o governo brasileiro e os “rombos” do País continuavam a provocar tal desconfiança, que seus títulos só eram vendidos com as taxas mais altas do mercado internacional. Na média, 12,3% ao ano, contra 9,5% pagos por El Salvador e taxas também mais baixas cobradas do Panamá, Lituânia, Marrocos (Gazeta Mercantil, 10/12/99). A humilhação é tão grande, que mereceria uma intervenção do economista Edwardo Amadeo, para explicá-la: “Vocês estão enganados. Esses países não são economicamente insignificantes, não. Quer dizer: se Você tiver capacidade de olhar o futuro, vai ver que daqui a uns 200 anos eles podem ser grandes nações. É nisso que os banqueiros estão apostando. Não há nenhum problema, portanto, em o Brasil ficar comendo poeira deles”. Pois sim. O ano 2000 vai dizer.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil