Jornal Folha de S.Paulo , sábado 8 de maio de 1999
Há coisa de um mês, a Assembléia Legislativa de São Paulo divulgou o relatório com as conclusões de uma CPI sobre a Febem paulista. Devastador. Maus-tratos, falta de atividades educacionais, o inferno. Fábrica de criminosos. Os jornais registraram o “lançamento” do relatório (não houve coquetel no Teatro Real, não) em 20 linhas. Na “fábrica de criminosos”, 1.600 menores, onde só caberiam 700. Isso depois de quatro anos da administração Mário Covas. Aquela que dizem ser “preocupada com problemas sociais”. E sempre poupada pelos formadores de opinião.
Nos jornais de ontem, a revelação de um “segredinho de Estado”. Como se sabe, a “privatização” das rodovias paulistas provocou a instalação de postos de pedágio a cada 30 quilômetros. Antes mesmo de as empreiteiras fazerem obras mínimas, como construção de acostamentos, caso da rodovia que vai de Mogi Guaçu a Mococa. O pedágio encareceu insuportavelmente o transporte em caminhões. Foi anunciado um “desconto” para as transportadoras, com o fornecimento de um tipo de “bônus”. Quem deu o desconto? As “compradoras” das rodovias? Não. O governo do Estado está pagando. Isto é, São Paulo privatiza, fica sem a receita do pedágio e paga o “desconto”. Dinheiro retirado dos impostos, do ICMS e do IPVA. Dinheiro de todos nós. Mais “rombo”. Coisas do governo Covas, aquele quem tem “preocupação social”. E você paga. Outro “segredinho de Estado”: o governo paulista privatizou a Eletropaulo e a Companhia Paulista de Força e Luz. Acontece que os “compradores” não querem instalar os serviços de eletrificação rural, de energia elétrica para uso nas máquinas. Equipamentos de irrigação etc. das fazendas, sítios, zona rural, porque o consumo é baixo. Quem está pagando essa instalação? O governo Covas. Privatização no Brasil é assim: os “compradores” ficam só com a parte altamente lucrativa, com o filé mignon. As atividades menos lucrativas são “empurradas” para o governo (nós) – quando ele é submisso aos interesses de empresas. Ao privatizar, o Estado fica sem o faturamento anterior. Só com despesas. Tem de tirar dinheiro dos impostos. Mais rombos.
Quem se importa? Claro que ninguém se importa com os menores da Febem ou os menores de rua. Classe média, classe alta, todos se lixam. Até o momento, é claro, em que um jovem, uma adolescente, um profissional liberal, uma executiva sejam fuzilados por um ex-Febem em um semáforo ou um banco 24 horas. Ou Brazil, Brazil
O governo diz que o Brasil reconquistou a “credibilidade” e que os dólares estão voltando. Os formadores de opinião aderem mais uma vez à mentiralhada. Os títulos que o Brasil vendeu no exterior, os célebres US$ 2 bilhões, estão pagando os juros mais altos dos últimos 200 (ou 176) anos da história do país: para começar, 11,88%. Empréstimos que bancos estrangeiros fizeram na semana passada estão com juros ainda mais indecentes: 12,25%. Praticamente o triplo da taxa normal internacional, a libor, na faixa dos 4,8%. A conta de juros externos vai explodir. Isto é, explodir ainda mais, porque já disparou. Ajudados pelos sorrisos do sr. Camdessus e do FMI. Os banqueiros esfolam o país. Cavando, cavando. Detalhe: as taxas de juro impostas ao Brasil, na maioria dos empréstimos, se compõem de duas parcelas: uma, igual aos juros pagos pelos títulos do governo dos EUA; a outra parcela, uma “taxa extra”, para “compensar” o risco de emprestar ao Brasil.
Acontece que as taxas dos títulos dos EUA estão em alta – e vão subir muito mais nos próximos meses. Os juros para o Brasil, automaticamente, subirão junto, nos empréstimos já contratados. Mais “rombo” em dólares. É esperar pra ver.
Em um único mês, os EUA tiveram um “rombo” de US$ 19 bilhões na balança comercial (exportações menos importações). Em março, o “rombo” vai piorar, com a disparada de 80% nos preços do petróleo, que os norte-americanos importam maciçamente. O investidor internacional já olha com desconfiança o crescimento desse “rombo”. Por isso, começaram a reduzir as compras de títulos do Tesouro dos EUA, exigindo taxas de juro cada vez mais altas para aceitá-los. Elas já subiram da faixa dos 4% para praticamente 6% nos últimos meses. Repetindo: 1999 vai ficar na história como o ano em que a hegemonia do dólar, no mundo, foi abalada. E a Europa avançou.
Entidades empresariais, como a Fiesp ou a Confederação Nacional da Indústria, embarcam – outra vez, outra vez – na canoa furada do falso otimismo capachildo. Aderem a esse “besteirol” de “recuperação surpreendente”, “antes do previsto”. Ora, os meses de abril e março tradicionalmente acusam aumento nas vendas e produção, por causa do dinheiro injetado no interior, com a comercialização das safras agrícolas – e por causa da aproximação do Dia das Mães. Mesmo com a redução do IPI e do ICMS, as vendas de veículos voltaram a cair em abril. E as vendas no comércio? Na Grande São Paulo, abril acusou recuo de 8% para as consultas ao SCPC e ao Telecheque. Sobre março, que ainda estava “longe” do Dia das Mães. É essa a tal recuperação? É esperar para ver.