Jornal Diário Popular , quarta-feira 29 de setembro de 1999
Aos trancos, o Real vai novamente perdendo o valor diante do dólar, que continua a avançar, degrau a degrau, rumo à marca dos 2,00 reais. Comprova-se, assim, que é absolutamente inútil a política adotada pelos gênios do Banco Central, tentando "- salvar" o Real de uma forte desvalorização. Já há um mês e meio, o BC tenta conquistar os banqueiros e investidores, daqui e de fora, oferecendo-lhes títulos ("- papagaios") com valor em dólar, ou correção cambial, como dizem os especialistas. Objetivo da tática: evitar que esses aplicadores continuassem a ampliar a compra de dólares (moeda, ou contratos nas Bolsas), pressionando suas cotações para cima. Acontece que essa fórmula tem um preço altíssimo para o País e o contribuinte, pois significa que se o Real cair, o Tesouro vai pagar os "papagaios" pelo novo valor do dólar, isto é, os bancos e investidores receberão também o equivalente à desvalorização. Em outras palavras, o governo está aumentando violentamente o "rombo" e a dívida do Tesouro, comprometendo ainda mais o futuro do País.
Tudo, exatamente como aconteceu em janeiro último, sem falar nos juros escorchantes dos últimos quatro anos, que "quebraram" a União, os Estados e as Prefeituras. A esta altura, cabe perguntar: será possível que o Congresso Nacional vá continuar assistindo passivamente a essa política suicida do governo FHC e seu Banco Central? É mais do que sabido, há muito tempo, que a nova desvalorização do Real é inevitável por causa da "falta de dólares". Provocada, por sua vez, pela desconfiança, totalmente justificada, de que o Tesouro não conseguirá jamais enfrentando a carga de 10 bilhões de reais de juros (só juros) por mês.
Os investidores temem um calote, fogem dos "papagaios" do governo — e correm para a compra de dólares. Se os fatos estão mostrando que a alta do dólar é inevitável, por que insistir em endividar o tesouro ainda mais, em dólares, céus? Não se alegue que política econômica é atribuição do Executivo, e que o Congresso não pode determinar mudanças de rumo nessa área. É evidente que, se a própria base governista aderisse a um "basta" à política econômica dos últimos anos, o presidente da República não teria como ignorá-lo.
Há políticos respeitáveis, de respeitável passado como homens públicos, também na base governista. O que eles ainda esperam, afinal? Não estão vendo o desemprego avançando, empresas quebrando, o Tesouro afundando, a fome (mesmo) se espraiando sem nenhuma perspectiva de melhora, nem mesmo a longo prazo? Não estão vendo o comprometimento do futuro do País, via desnacionalização que ampliará e eternizará a remessa de bilhões de dólares para o exterior? O Congresso Nacional vai continuar de braços cruzados diante desse quadro, como se o grande desastre em que o País mergulhou não lhe dissesse respeito?
O Brasil precisa declarar uma moratória imediata, para renegociar dívidas dos banqueiros internacionais, e reduzir os juros aqui dentro. É hora de uma "virada".