Jornal Gazeta Mercantil , quinta-feira 22 de janeiro de 1976
De repente, daqui a uns três anos, o Brasil verificará que já é outro País. A região da Grande São Paulo já não estará preocupada com o “inchaço populacional”, porque o seu número de habitantes não estará mais crescendo à taxa de 6% ao ano, ou o equivalente a mais de 600 mil habitantes por ano. As favelas ao redor das cidades do interior, fenômeno surgido nos últimos dez anos, terão deixado de crescer, porque não haverá tantos “bóias frias”, isto é, os trabalhadores expulsos do campo e marginalizados na periferia das cidades. Talvez não se consiga vender tantos automóveis como hoje, mas as fábricas de tecidos, calçados, remédios e eletrodomésticos de baixo custo, como fogões “não empetecados”, radinhos de pilha, ferros elétricos, modestos fonógrafos, estarão trabalhando a todo vapor. Milhões de homens e mulheres que hoje possuem apenas uma ou duas camisas, um ou dois vestidos, estarão comprando mais uma ou duas peças ou, quem sabe, o primeiro agasalho de sua vida. Calçados serão igualmente um luxo a que poderão se dar pela primeira vez. E, para outros milhões, chegará a hora de comprar uma mesa, uma cadeira, um armário para suas casas sem móveis, onde se come de cócoras, prato ou cuia nas mãos, e onde o prego na parede, a esteira no chão, o caixote de querosene são todo o seu mobiliário.
O Brasil estará formando um mercado interno de massas, para produtos mais populares, que, ao agigantar-se, acabará tendo reflexos multiplicadores sobre toda a economia.
O caminho nesse sentido já começou a ser percorrido, mas só de repente, daqui a três anos, o Brasil vai “descobrir” que é outro país. Porque, hoje, o que empolga os analistas é o trato das coisas miúdas, irritantemente pequenas: quanto cresceu ou caiu a indústria automobilística, se o preço da carne sobe ou desce, se o emissário de Ipanema polui ou despolui Ipanema. Sempre, numa torcida pelo “pior”.
A DETONAÇÃO
O país está às vésperas de aprovar sua legislação sobre o uso do solo. Bisonhamente, mediocremente, os analistas falam dessa lei como uma “ARMA” contra a especulação imobiliária. Anunciada em suas linhas gerais já há dois ou três meses, a lei não foi ainda entendida, em sua profundidade. Ela vai, pura e simplesmente, inverter radicalmente o processo de crescimento brasileiro dos últimos anos, caótico, acumulador de distorções, gerador de problemas e desperdícios.
O que prevê a nova legislação? Diz-se, superficialmente, que ela vai “disciplinar” o crescimento das regiões metropolitanas, detendo o seu inchaço. Não é verdade. Ela vai deter o crescimento apenas da Grande São Paulo onde, hoje, menos de 40 municípios abocanham mais da metade da renda, do valor, dos produtos fabricados pela indústria do país. Vai, também, impedir que a região de Campinas e Sorocaba, a menos de 90 quilômetros da Grande São Paulo, continuem a crescer com a rapidez atual. Como vai desacelerar a expansão industrial do Vale do Paraíba, no lado paulista. Um “cerco contra São Paulo”, como já dizem os interesses contrariados? Não. Um deslocamento no eixo do crescimento paulista. Vai-se promover a “interiorização” do desenvolvimento, pela desconcentração industrial. Perto de 50 cidades do interior Paulista, “capitais de sua região”, terão incentivos especiais para acelerar sua industrialização e fortalecer sua agricultura, fixando mão-de-obra, evitando que milhares de seus habitantes deixem o interior, todos os anos, em busca de emprego e mais renda. Fixação de populações, em resumo.
O FLUXO CORTADO
Bloqueia-se o crescimento da Grade São Paulo. Mas não das outras regiões metropolitanas: o mesmo programa prevê incentivos especiais para a criação de novos “pólos industriais” de desenvolvimento, na Grande Rio, em Minas e na Bahia. A política para esses dois últimos Estados pode ser facilmente compreendida: busca-se criar emprego, renda, para milhões de pessoas que hoje vivem miseravelmente, e por isso emigram, rumo às regiões metropolitanas. Ainda uma vez, a política é fixar mão-de-obra, evitar o êxodo, o “inchaço metropolitano”.
Mas, e os incentivos ao Rio? Seriam uma odiosa discriminação contra São Paulo? Ainda uma vez, não. A Grande Rio e, sobretudo, a Baixada Fluminense são uma área de desemprego disfarçado ou ostensivo tão graves como a Grande Recife: dados recentes do Ministério do Planejamento mostram, por exemplo, que nada menos de 87% das centenas de milhares de pessoas que trabalham no Setor de serviços, na região, ganham menos de um salário mínimo. Não é preciso dizer mais, para entender que a industrialização, a aceleração do crescimento econômico no Rio é essencial para dar emprego a milhões de pessoas que vieram de outros Estados em busca de melhores condições de vida – e não encontraram. O Estado do Rio é uma região tão pobre, tão subdesenvolvida quanto o Nordeste.
O GRANDE SALTO
Os dois dados mais importantes da política econômica do país nos últimos anos ‘pelas suas conseqüências de longo prazo – não foram apreendidos, compreendidos até agora. O primeiro é a “revolução” representada pela nova “lei dos solos”. A segunda é a mudança na política agrícola, que vai esboçando a tendência de dar prioridade ao pequeno produtor e não ao grande empreendimento agropecuário (e contra a qual também as baterias começaram a ser disparadas). É esse o caso do programa divulgado há uma ou duas semanas, para a compra pelo governo das safras de milhares de minifúndios do Nordeste. É esse o caso do Plano do Álcool, pelo qual a Petrobrás montará refinarias inclusive em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, usando como matéria-prima a mandioca usada por centenas de milhares de pequenos empresários agrícolas (500 mil, só no caso daqueles dois Estados).
O Brasil ainda não entendeu que tudo isso fixa o homem no interior, evita o “inchaço” das metrópoles (e os gastos bilionários exigidos para tentar fazê-las menos odiosas, sem água, esgoto, transportes ou habitação) e evita as migrações. O Brasil ainda não entendeu, acima de tudo, que não é só através da política salarial que se distribui a renda, formando um mercado interno. Se a renda de um país é 100, e ele resolve produzir álcool e mais alimentos, ou mais bens industriais, gerando uma riqueza de 30, nada mudará se poucas dezenas de grupos empresariais, ou uma única região (São Paulo), ficarem com uma parcela de 25 dessa nova renda, cabendo apenas 5 aos demais milhões de habitantes. A renda se concentrará ainda mais, eternizando todos os problemas eternizados até hoje.
Quando se faz um cerco à Grande São Paulo? Quando se fixa o homem no interior. Quando se apóia o pequeno produtor. Então, o país está distribuindo renda “a priori”, antes que ela se concentre. E criando um mercado de massas para expansão da economia.