Jornal Folha de S.Paulo , domingo 1º de setembro de 1996
Não é novidade para ninguém: a Telebrás, estatal que explora a área de serviços telefônicos e telecomunicações no país, teve um lucro bilionário no semestre. Só ela? Não. A mesma coisa aconteceu com as estatais telefônicas dos Estados.
No Paraná, a Telepar teve um salto de 185% em seu lucro. Em Minas, a Telemig alcançou os 260%. Aumento na utilização dos serviços, por causa do Plano Real? Balela. A Telepar, por exemplo, ampliou o volume de atendimento (tráfego) em 3%, e lucrou mais 185%.
Esses lucros retumbantes ocorrem só no setor de telecomunicações? Não. Na área de energia elétrica ocorreram fenômenos equivalentes. Em São Paulo, a Eletropaulo obteve lucro de R$ 160 milhões no semestre, contra um prejuízo de R$ 270 milhões em 1995. A Cesp, igualmente, lucrou R$ 160 milhões, contra perdas de R$ 124 milhões no ano passado.
Não há nenhum "milagre" nessa virada. Todas as estatais brasileiras vinham dando prejuízos ou baixos lucros há muitos anos por um motivo determinante: o próprio governo, as próprias equipes econômicas, "achatavam" os preços e seus produtos ou serviços. Ano após ano, elas sofriam perdas fabulosas, precisavam tomar empréstimos para cobrir os "buracos" _e, aí, passavam a ter uma despesa extra, com os juros desse endividamento.
Foi assim com as siderúrgicas, que vendiam aço por até 25% do preço (que foram triplicados, depois que elas foram privatizadas), com a Petrobrás e o preço do álcool, da nafta e até do óleo combustível (a grandes clientes). Com o Lóide, empresa de navegação. E com as empresas elétricas, telefônicas...
Por que as equipes econômicas achatavam esses "preços"? Ora para tentar segurar a inflação, ora para garantir lucros de empresas privadas que consumiam seus produtos ou serviços.
Essa política de destruição das estatais foi ardilosamente escondida, na campanha de desinformação desencadeada nos últimos anos para desmoralizá-las _e convencer a opinião pública das vantagens de privatizá-las. Agora que o governo FHC já conseguiu a aprovação do Congresso para essa política, as tarifas e preços estão sendo reajustados, para beneficiar os "compradores". Daí, os lucros retumbantes.
Os feiticeiros podem sair queimados. Os novos balanços mostram ao Congresso, à classe média e povão, a enxurrada de mentiras contra as estatais. É mentira que elas não possam dar lucros, é mentira que elas não possam obter empréstimos para investir _e pagá-los. Privatização, sim. Mas dentro de uma política debatida com a sociedade.
Está sendo liquidado, nos EUA, o grupo norte-americano que há poucos meses "comprou" o primeiro trecho privatizado da Rede Ferroviária Federal. Quebrado. Exemplo claro do "facilitário" que é a venda das estatais. Ninguém pensa em corrupção, claro. Só incompetência e pressa mesma.
Na semana em que o Banco Econômico quebrou, ele havia participado de um leilão de privatização de empresas petroquímicas na Bahia. "Comprado" de estatais. A mesma coisa com o Banco Nacional. Há outros casos.
Na Inglaterra, as estatais foram privatizadas, sim. Mas 9 milhões de ingleses, ou 25% da população, foram estimulados a comprar as ações. Aqui? Apenas 200 mil brasileiros o fizeram. Thatcher tinha pudor. E a Inglaterra tem um "Congresso" cujos líderes não aceitam ser tratados como reles capacho pelas equipes econômicas.