Jornal Diário Popular , terça-feira 18 de julho de 2000
Quando os ‘‘tanquinhos’’ de lavar roupa foram lançados no mercado, milhões de famílias de baixa renda puderam comprá-los, graças aos preços, quatro vezes mais baixos do que os de uma máquina de lavar roupa tradicional. Era um mercado virgem, capaz de absorver milhões de unidades durante três, quatro anos. Saindo do zero, a produção dava saltos de 100%, 200% de um ano para outro — para depois se estabilizar, como para qualquer outro produto ‘‘velho’’, já existente no mercado. ‘‘Tudo isso é óbvio’’, como você deve estar pensando com seus botões: em mercados virgens, produtos novos têm um grande crescimento na produção, com saltos estatísticos, no período inicial. Mas, depois, estagnam ou entram em decadência, porque as famílias que podiam comprar já o fizeram. Realmente, essa tendência é óbvia. Mas, como tantas outras coisas óbvias, também ela não é enxergada pelo governo Fernando Henrique Cardoso e entidades empresariais a ele submissas. Ambos fazem questão de alardear uma pretensa ‘‘recuperação na economia’’, e utilizam, para explicar o seu otimismo, os saltos na produção eletroeletrônica ou, mais especificamente, na venda de... telefones celulares.
Ora, nesse mesmo setor, as vendas de aparelhos de TV despencaram pela metade, de 8 para 4 milhões de unidades por ano, três grandes empresas multinacionais até fecharam suas fábricas em Manaus, nos últimos meses. Fenômeno parecido está ocorrendo com os equipamentos de som. ‘‘Tanquinhos’’, forninhos elétricos seguem o mesmo destino. Nada disso o governo, enxerga: insiste em um otimismo tolo, caolho, tentando ignorar a crise que atinge todos os setores — menos os novos, os mercados virgens. É óbvio, mais uma vez, que a economia brasileira não vai voltar a ter um crescimento contínuo, gerar empregos, renda, e mais consumo, enquanto depender apenas de alguns focos passageiros de expansão. É inacreditável que isso não seja enxergado pelo presidente da República, tão sábio, tão preparado, quase seis anos depois de estar no poder.
O Brasil precisa de uma política industrial e de uma política de criação de renda, para reencontrar o crescimento, permanente, duradouro, como já possuiu no passado. Não sairá do atoleiro da recessão e do desemprego enquanto o governo e entidades empresariais submissas continuarem deslumbrados com a venda de celulares — que, aliás, nem sequer são ‘‘brasileiros’’, nem sequer criam empregos, pois são montados com um altíssimo nível de peças e componentes importados, pelas multinacionais que os vendem no Brasil. Não criam empregos, não criam renda, não criam consumo, e ainda por cima ‘‘torram’’ dólares, com as suas importações: o rombo do setor eletroeletrônico (exportações menos importações) está na faixa de US$ 2 bilhões — por trimestre. Ou US$ 8 bilhões por ano. A falta de política industrial, além de eternizar a recessão, está afundando o Brasil, como se verá amanhã, em um balanço final desses artigos que tentaram avaliar a real situação da indústria e da economia.