quarta-feira 20 de maio de 1992
Para quem está irritado com a lenta queda da inflação, nessa base morrinha de 2% (ou dois pontos porcentuais) por mês, chegou a hora de usar as maquininhas de calcular e fazer algumas continhas animadoras. Este mês de maio deve – é o que os números mostram – abrir espaço para uma aceleração no ritmo de recuo dos índices inflacionários. Não é chute. É matemática. Para chegar àquela conclusão, basta deixar de olhar apenas para os números da inflação de abril (que, frise-se, já ficou abaixo dos 20% no caso de nada menos de cinco índices, inclusivo o apurado pelo Dieese, entidade sustentada pelos sindicatos de trabalhadores). Empresários, sindicatos, economistas precisam agora analisar também os efeitos das taxas de inflação dos últimos quatro meses, e também dos últimos três meses, importantíssimos para definir o ritmo da inflação daqui para a frente. Por quê? Porque a economia brasileira continua semi-indexada. Porque há, assim, um sem número de preços, salários, valores, contratos dentro da economia que são reajustados naqueles prazos, isto é, a cada quadrimestre ou a cada trimestre, com base na inflação acumulada no período. E o fato é que, daqui para a frente, os índices de reajustes trimestrais e semestrais vão acusar queda mais acentuada, que nada tem a ver com o pinga-pinga de 2% ao mês que aparece nos índices de inflação. Manipulação? Não. Aritmética. Tomem-se como exemplo os índices da Fipe: de janeiro a março, a inflação acumulada no trimestre foi de 86,3%; de fevereiro a abril, trimestre subseqüente, o índice cai para 81,6% - ou quase cinco pontos porcentuais a menos. Isto significa que contratos, salários, serviços reajustados trimestralmente pelo índice da Fipe já a partir de maio estão sofrendo acréscimos inferiores. Por quê? Por que no cálculo do índice do primeiro trimestre está incluída a inflação de janeiro, de 25,8%; esse resultado é substituído, no índice do trimestre subseqüente (fevereiro a abril), pela taxa de abril, de 22,7%. Um exemplo ainda mais expressivo da redução no ritmo de reajustes trimestrais e quadrimestrais pode ser encontrado na evolução do IGP-M, índice geral de preços do mercado financeiro, apurado pela Fundação Getúlio Vargas. O acumulado trimestral já caiu de 91,8% para 86,1%, na comparação entre janeiro/março e fevereiro/abril. Pois esse índice trimestral deve despencar para a faixa dos 73% no trimestre março/maio, se confirmado o novo índice de 19% para maio, que substituíra uma taxa de nada menos de 27,8% observada em fevereiro (e incluída no cálculo do índice trimestral fevereiro/abril). Em resumo: no cálculo dos índices trimestrais e quadrimestrais de inflação, as altas taxas mensais registradas três e quatro meses atrás estão sendo substituídas, agora, por taxas na faixa do 19% a 20%. Com isso, todos os reajustes de preços, salários, contratos, etc. feitos com aquela periodicidade passam a ter reajustes gradativamente menores, tendência que vai ficando cada vez mais forte. Os efeitos desse quadro novo ainda não foram plenamente avaliados pela sociedade. Não seria mau que a equipe econômica chamasse a atenção para a nova tendência, pois isso poderia levar grande parcela das empresas e agentes econômicos em geral a refazerem suas projeções para a inflação dos próximos meses, desta vez para baixo. Se cada empresa, cada setor, se apercebesse de que vai enfrentar reajustes menores de salários, reajustes menores de custos daqui para a frente, teriam disposição também para cortar os próprios reajustes de preços. A queda da inflação se aceleraria ainda mais. Além da evolução dos índices trimestrais e quadrimestrais de preços, outra arma contra a inflação pode ser acionada pelo governo nestas próximas semanas, a saber, a adoção de um ritmo menor de reajustes para as tarifas dos serviços e preços dos produtos das estatais. A imprensa fez grande alarido em torno do não-cumprimento de duas metas acertadas entre o Brasil e o FMI. Tudo bem. Mas ignorou, ao mesmo tempo, um dado importantíssimo e positivo ao fazer o balanço das metas: no caso das empresas estatais, elas não apenas atingiram o superávit que estava previsto para o trimestre, de Cr$ 1,6 trilhão, como o duplicaram, para Cr$ 3,2 trilhões. O resultado se explica pelos aumentos excessivos, acima das exigências do FMI, aplicados nas tarifas: 16% reais (já descontada a inflação), para a energia elétrica; 12% para os telefones; nada menos de 26% para o óleo diesel, além de 15% para o gás doméstico e o óleo combustível. Está claro que o governo aumentou seus preços acima do necessário (e com isso, até provocou uma inflação “desnecessária”), talvez porque não tivesse segurança quanto ao ritmo de queda da inflação. Já que o combate à inflação vem impondo um altíssimo custo a empresários e trabalhadores, não seria disparatado acreditar que, neste momento, a equipe econômica pudesse anunciar reajustes de tarifas mais moderados, dando uma contribuição para acelerar o ritmo de queda das taxas inflacionárias – sem nenhum dano às metas acertadas com o FMI, e sem criar qualquer “rombo” na área de estatais. As lideranças empresariais, que têm insistido na redução das taxas de juros (já em andamento), têm aí uma nova bandeira: maior realismo nos reajustes tarifários. Só que, desta vez, para baixo.