[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  A inflação, neste país sofisticado

quarta-feira 20 de fevereiro de 1991


Faltam sementes no Nordeste, para o plantio da nova safra da região. Depois da seca do ano passado, que provocou quebra de até 90% nas colheitas de algumas áreas, chove desde dezembro nas terras nordestinas, mas não há como aproveitá-las até o momento. Quando os economistas e analistas sofisticados do Sul-Maravilha ocupam páginas e páginas dos jornais, e ocupam, cada vez mais horários na televisão para discutir sofisticadamente a inflação brasileira, a gente coça a cabeça. Tem teorias para todos os gostos, palavrório complicado para todos os temperamentos: é o choque ortodoxo, o choque heterodoxo, a base monetária, o déficit primário, a “arbitragem” do Banco Central nos mercados de ouro e dólar – e, de quebra, o poder dos cartéis, a “bolha de consumo”, o mark up pelo qual as empresas aumentam seus preços e reduzem a produção quando o mercado se retrai (no comportamento inverso ao adotado pelas empresas em outros países). Tudo sofisticado, tudo muito importante. Mas, e a realidade? É um pecado, pecado de falta de sofisticação, dizer que a inflação é, simplesmente, alta de preços ou preços em alta. Pior ainda: é ser terra-a-terra, vulgar, dizer que em todos os últimos “choques” a alta de preços começou sempre a partir da especulação com os alimentos, a partir da alta descabida de certos alimentos que acabaram “explodindo” a taxa de inflação de um mês, logo acompanhada por remarcações generalizadas de preços em outros setores, reforçadas pelo temor ao congelamento (gerado pela alta anterior da taxa inflacionária, por causa dos alimentos). É demais. É intolerável querer reduzir o problema da inflação brasileira a aspectos tão simples. Só que é isso mesmo que vem acontecendo há anos, com toda a explosão inflacionária, e toda derrocada de “choques” surgindo a partir de pressões sobre os preços dos alimentos. Ainda agora, o fortíssimo choque que o governo aplicou à economia tem mil explicações retumbantes, inclusive da equipe econômica que, formada por economistas, também não gosta de descer a minúcias como o preço da comida. Afinal, quem pode se sentir poderoso, com status de gênio econômico se passar a falar de arroz, feijão, carne, leite, soja? No final do final das contas, pode-se dizer que o governo adotou um novo e pomposo choque, com remédios ortodoxos e heterodoxos, para enfrentar, simplesmente, um processo de alta criado a partir do aumento dos preços dos alimentos. Não é mentira, não é chute: os índices de inflação subiram nos últimos meses, principalmente a partir de setembro, pro causa simplesmente da alta dos alimentos, que têm um grande peso no cálculo da taxa inflacionária. Um tiro de canhão contra um pigmeu. Um tiro de canhão que não precisaria ter sido disparado se o governo tivesse tomado providências (corte no crédito para forçar desova de estoques, por exemplo) para conter a especulação. Mas as equipes econômicas, com o seu horror à vulgaridade que se chama abastecimento de alimentos, ficam imobilizadas com a especulação nessa área (é muito mais chique, claro, brigar contras os cartéis, as multinacionais. Dá, é claro, muito mais sensação de força, de onipotência, temporárias, já que, de uma hora para a outra, tudo desaba por terra porque não se cuidou em tempo dos preços do feijão, do arroz ou da carne). Como não curtem o assunto, as equipes econômicas acreditam em estatísticas manipuladas por órgãos do próprio governo, para ajudar os puxadores. Acreditam que há grandes secas, grandes quebras de safras, grandes “bolhas de consumo” e, por isso, fases de escassez. O que está acontecendo no Nordeste mostra que o Brasil continua a pagar um alto preço por esse santo horror à realidade. O governo está até – brilhantemente, claro – pensando em importar alimentos. Por que não pensou ontem, anteontem, em dezembro, em arrumar sementes a qualquer custo para o Nordeste? Boas safras no Nordeste, este ano, assegurariam sobras na oferta de alimentos, formação de estoques, equilíbrio nos preços mesmo na entressafra (nem se fale na questão social, de combate à fome, desemprego e miséria no Nordeste. Essas questões não passam pela cabeça das equipes econômicas, mesmo porque, se elas fossem resolvidas com simplicidade, como é que suas sumidades iriam, depois, montar complicadíssimos programas sociais para serem anunciados na televisão pelo presidente da República de plantão, sem nunca saírem do papel?). O Nordeste precisa de sementes, já. Para minorar o sofrimento de sua população. E para ajudar a segurar a inflação em todo o país. Esse é o tema prioritário que deveria ocupar o Ministério da Agricultura, sempre muito ocupado com o lobby da agropecuária do Sul-Maravilha, como sempre aconteceu no Brasil. É o tema prioritário para o Congresso, para sindicalistas (que também já falam, sofisticadamente, em mark up), para os economistas, para os governadores. Isso, se eles não continuarem achando uma humilhação falar de arroz com feijão. Claro.



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