Jornal Folha de S.Paulo , domingo 29 de agosto de 1982
Os próprios ministros da área econômica admitem frequentemente que a dívida externa virou uma armadilha para a economia brasileira. Nos últimos anos, a necessidade de obter empréstimos novos apenas para pagar empréstimos velhos e seus juros criou um contra-senso: o Brasil lança grandes projetos, os célebres projetos faraônicos, porque são esses projetos que conseguem financiamentos no Exterior, obtendo-se assim os dólares necessários para honrar - temporariamente - o compromisso da dívida.
Esse círculo vicioso, porém, acaba por aumentar a própria dívida externa - inclusive porque os financiadores sempre exigem, para conceder os empréstimos, que uma parte dos dólares seja aplicada em importações desnecessárias, de produtos que poderiam ser fabricados no Brasil.
Para o economista Ignacy Sachs, professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, colaborador da Universidade das Nações Unidas, e membro fundador da Fundação Internacional para um Outro Desenvolvimento, com sede na Suíça, não é verdade que o Brasil não possa fugir à armadilha:
"O Brasil, o México, a Argentina, como outros países em desenvolvimento, mergulhou na crise cambial trazida pelo endividamento externo por ter adotado um "modelo de desenvolvimento imitativo", copiado dos países ricos, aberto ao Exterior, e que está claramente esgotado". Formado pela Faculdade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, onde viveu (19 anos), Sachs aponta que chegou a hora de o País adotar um modelo alternativo, adequado às suas condições:
Sob esse aspecto, o Brasil tem uma situação privilegiada, pois dispõe de recursos ociosos até em matéria de mão-de-obra qualificada. Isto significa que suas necessidades de investimentos, para manter a economia em crescimento em novos moldes, são proporcionalmente pequenas.
Uma das conseqüências dessa constatação: através do planejamento, o Brasil pode reduzir suas necessidades de empréstimos externos e, portanto, conter o ritmo de crescimento da sua dívida.
A menor dependência de recursos externos dá, ao Brasil, melhores condições para renegociar sua dívida externa. Mesmo que ela reduzisse temporariamente o fluxo de empréstimos, os impactos desfavoráveis sobre a economia não teriam a dimensão que os opositores da renegociação afirmam. E o Brasil, em contrapartida, poderia livrar-se da armadilha hoje representada pela dívida externa, foco de políticas recessivas, desemprego e inflação.
Crise é inédita e duradoura
Folha de São Paulo - Países em desenvolvimento, como o Brasil, que recorreram ao endividamento externo nos últimos anos, estão sendo duramente atingidos pela crise da economia mundial. Há saídas para o impasse, além da adoção de políticas recessivas?
Ignacy Sachs - Ao contrário do que muitos acreditam, a crise mundial é inédita, de raízes profundas e com efeitos duradouros sobre os países em desenvolvimento. O que ocorreu foi o esgotamento do modelo baseado na divisão internacional do trabalho, com a instalação de fábricas das multinacionais nesses países, atrás de mão-de-obra barata remunerada com salários extrabaixos. Assolados pelo problema do desemprego, da capacidade ociosa de suas empresas, os países ricos lançam-se a guerras comerciais, ao neoprotecionismo (disfarçado, como no caso do governo Reagan, sob a máscara do livre-cambismo)...
Folha - O que significa que, agora, interessa às multinacionais aumentarem a produção em seus próprios países, abandonando-se a divisão internacional do trabalho da década de 70...
Sachs - ...Ao mesmo tempo, houve outra transformação radical, dentro da economia mundial: os banqueiros se autonomizaram. Isto é, deixaram de atuar como uma peça de todo o sistema econômico, para agirem de acordo com seus interesses. Impondo taxas de juros nunca vistas. Com o novo poder ganho pelos banqueiros, tudo vem funcionando às avessas na economia mundial: há imensa liquidez, sobra de dinheiro no mercado internacional e, no entanto, as taxas de juros chegam às nuvens. Com isso, as empresas não investem, preferem fazer aplicações no mercado financeiro para ganhar juros, já que não conseguiriam obter o mesmo lucro, com sua produção - ou, ainda, não conseguiriam um lucro suficiente para recuperar os investimentos e pagar o custo do dinheiro. Agrava-se a recessão, a sobra de dinheiro cresce, e as taxas continuam elevadas, em termos reais... Em 1981, o lucro dos bancos no mercado mundial chegou a US$ 100 bilhões, muito superior ao valor do aumento da produção mundial, o que significa que uma parte da renda das empresas e países foi transferida para eles...
Folha - Nos últimos meses, cresceu o número de países ou empresas incapazes de honrar seus compromissos internacionais. No Brasil, há quem defenda a renegociação, antes que semelhante impasse se manifeste, mas o governo rejeita a idéia...
Sachs - Vai chegar o momento em que a necessidade de uma ampla renegociação, para o conjunto de países em desenvolvimento como um todo, se imporá. Países com o peso econômico e político do Brasil contarão muito, quando credores e devedores se sentarem à mesa...
Brasil adotou modelo imitativo
Folha - Para muitos analistas, as proporções da dívida externa brasileira tornaram sua economia extremamente dependente de decisões tomadas no exterior e impedindo a sua própria readaptação diante do novo quadro econômico mundial, inclusive as transformações exigidas pela crise de energia...
Sachs - O Brasil, como outros países em desenvolvimento, adotou o ’’modelo imitativo", copiado dos países ricos, baseado em alto grau de consumismo, em lugar de acumular recursos e canalizá-los para investimentos produtivos (e essa é uma das origens do crescimento de sua dívida externa). É evidente que essa imitação não pode persistir, e o Brasil deve buscar um modelo alternativo.
Nos países desenvolvidos programa-se a robotização crescente, a utilização da telemática, etc., mesmo que esses avanços tecnológicos impliquem em aumento do desemprego. O Brasil vai querer seguir esse caminho? Reduzir o seu mercado de trabalho, antes mesmo que ele tivesse absorvido milhões de pessoas?
Folha - Mesmo entre os economistas de oposição, há quem advogue a tese de que o Brasil não pode "perder o bonde da História", e precisa acompanhar as tendências dos países ricos, para não ficar cada vez mais atrasado, em termos tecnológicos, condenando-se a condição de país de segunda categoria, para o futuro...
Sachs - As alternativos que os países ricos vêm buscando são um tipo de desenvolvimento extremamente dispendioso, em ternos econômicos e sociais. Eles estão mergulhados numa dança macabra, naquele processo que Schumpeter chamava de destruição criadora, obsolescência planejada; estão investindo maciçamente em substituição e modernização, apenas como forma de tentar manter a economia em nível satisfatório de operação. Não tem sentido imitá-los, quando existem modelos alternativos...
Folha - A ruptura com o modelo tradicional não traria problemas para a chamada "administração" da dívida externa. Já que a obtenção de financiamentos tem dependido da apresentação de grandes projetos e programas, mesmo não-prioritários aos banqueiros mundiais?
Sachs - A utilização de modelos alternativos tem exatamente o objetivo de reduzir a dependência dos créditos externos, com melhor utilização de recursos locais, contendo-se, portanto, o próprio ritmo de crescimento da dívida externa. A médio prazo, seria saída para o impasse cambial que atingiu os países em desenvolvimento...
Um imenso grau de desperdício
Folha - Que tipo de diretrizes econômicas exigiriam menor volume de recursos para chegar a esse resultado?
Sachs - No caso do Brasil, gostaria de citar, inicialmente, uma vantagem paradoxal, representada exatamente pelo imenso grau de desperdício que existe dentro da economia brasileira. (Apenas como exemplo: o não aproveitamento de resíduos agrícolas, que poderiam ser usados como combustíveis ou matérias-primas). Como se sabe, o combate ao desperdício, em todas as suas formas, pode ser uma fonte de financiamento, uma obtenção indireta de recursos pelo barateamento do custo de produção, pela própria redução no consumo de produtos, que exigiriam recursos para serem produzidos etc.
Folha - O que fazer com as indústrias com capacidade ociosa?
Sachs - Seria preciso redirecionar essa capacidade ociosa, e fazer a reconversão parcial de indústrias, ajustando-a aos novos tempos. No caso da indústria automobilística, por exemplo, essa reconversão significa estimular o lançamento de novas gerações de veículos, poupadores de combustíveis, como foi feito na Europa e no Japão, nos últimos dez anos. Por que não se cogitou, no Brasil, da produção de automóveis urbanos, para pequenas velocidades, e numero reduzido (dois geralmente) de passageiros?
O fato de existir recursos ociosos no Brasil é, aliás, um imenso trunfo para a adoção de modelos alternativos. Se o problema do Brasil fosse de oferta de bens ou de meios de produção, lógico que o volume de recursos para superar o impasse, fazer os ajustes, seria elevado. Mas o problema brasileiro é o oposto, é utilizar condições latentes: a indústria de bens de capital está subutilizada, o potencial agrícola esbarra constantemente com a formação de excedentes, há possibilidade de substituição de matérias-primas.
O Brasil tem até mão-de-obra especializada ociosa, o que significa que o País não precisa fazer investimentos maciços para formar recursos humanos, como ocorre com outros países. É inacreditável, mas o Brasil tem 80 mil PHDs nas mais diversas áreas, cifra com a qual a Europa jamais sonhou - em igual estágio de desenvolvimento. O mercado para esses especialistas, no entanto, está saturado, problema que seria solucionado com a adoção de programas de desenvolvimento próprios, que visassem a aproveitar esse contingente...
Folha - Isto não significa exatamente adotar diretrizes de “sofisticação tecnológica”?
Sachs - Não. Os modelos alternativos pressupõem o pluralismo tecnológico. Há lugar tanto para o desenvolvimento de satélites de comunicação como do aproveitamento de matérias-primas locais...
Folha - ...Tudo isso pressupõe planejamento, rejeitado por ministros brasileiros...
Sachs - Nos países desenvolvidos, não se faz mais confusão entre planejamento e regimes centralizados: o planejamento passou a predominar a partir do malogro das previsões de que as forças do mercado seriam suficientes para ajustar a economia mundial aos problemas trazidos pela majoração dos preços do petróleo, em 1973.
Aderir ao planejamento, além do mais, significa levar em conta todas as conseqüências do fracasso dos planejadores dos países do Leste Europeu. O planejamento deve ser flexível, com ampla participação da sociedade. Ter um compromisso claro com os problemas sociais do país - mas levar em conta as condições locais e mini-regionais. Deve harmonizar as iniciativas locais - mas levando em conta a autonomia local).
Folha -...na sua análise, o problema do Brasil não é oferta, e sim de demanda...
Sachs - ...exatamente. Por isso mesmo, o Brasil precisa de uma estratégia de desenvolvimento baseada no mercado interno, e não “extrovertida”, como a atual. Lógico que isso não significa subestimar o papel do comércio exterior - mas mesmo aqui é preciso planejar, evitar as importações supérfluas, a produção de bens dependentes de importações, que realimentam o endividamento externo. É preciso redimensionar o papel que o comércio externo deve ter dentro da economia. E descobrir o mercado interno.
Até conservadores britânicos estão contra monetarismo
Acentua-se cada vez mais a pressão sobre os conservadores britânicos para que atenuem a rígida política monetarista que vem sendo aplicada desde que assumiram o poder, no primeiro semestre de 79. Alvo de violentas críticas da oposição trabalhista e das lideranças sindicais, a política econômica da primeira-ministra Margareth Thatcher vêm, recentemente, sendo combatida também por antigos aliados políticos que, até certo ponto, partilham do mesmo ponto de vista econômico.
Geoffrey Howe, o ministro da Fazenda britânico, executor da política monetarista, encontra-se - neste momento que antecede a definição dos gastos públicos para o próximo ano fiscal - sob intensa pressão dos "wets" (conservadores moderados) e dos empresários que pretendem, se não alterar a estratégia econômica, pelo menos torná-la menos ortodoxa, a fim de que se possa combater efetivamente a recessão.
Até mesmo a London Business School, conhecida pela sua tendência monetarista, engrossou o coro dos descontentes e está agora afirmando que dificilmente a economia do país se recuperará sem um decidido estímulo por parte do governo. A Confederação da Indústria Britânica também chama a atenção para os últimos dados conjunturais a fim de mostrar que há muito já deveria ter sido posto um ponto final na recessão. Terence Beckett, presidente da entidade, lembra que o nível de produção industrial é o mais baixo dos últimos 15 anos, sendo que está 14% menor do que quando os conservadores assumiram, há pouco mais de três anos. E os sindicalistas acusam o governo de provocar o maior nível de desemprego da história do país: as últimas estatísticas oficiais, referentes ao mês de julho, davam conta de que mais de 3,2 milhões de pessoas estão sem emprego, o que representa 13,8% da população economicamente ativa.
Eleições
A preocupação dos políticos conservadores não é menor. Com as próximas eleições gerais marcadas para 84, eles temem que não haja tempo de a economia se recuperar até lá, reabsorvendo parte da mão-de-obra marginalizada, que, assim, votará na oposição trabalhista ou na aliança de centro entre social-democratas e liberais. James Prior, secretário para assuntos ligados à Irlanda do Norte, foi um dos mais importantes membros do partido a se prenunciar publicamente contra a atual política econômica, pedindo que um incentivo mais direto fosse dado à indústria.
Apesar de toda essa intensa pressão, Thatcher e Howe não parecem, dispostos a ceder, convictos que estão da correção da alternativa adotada. O fato é que os resultados, tantos os negativos como os positivos, vêm sendo obtidos como o planejado. A inflação chegou a cair até mais do que se previa devido, em parte, à queda dos preços das matérias-primas exportadas. A taxa anual já está abaixo dos 8% e ninguém duvida que, até o final do ano, atingirá os 7%. O beneficio que a redução da inflação trará a longo prazo tem sido o principal argumento do ministro da Fazenda na defesa da manutenção da rígida política monetária.
O que seus críticos reivindicam, em resumo, é uma forte injeção de dinheiro com efeitos imediatos na recuperação da atividade econômica. Mas é mais provável que Howe se demita a abrir mão do combate à inflação — que, inevitavelmente, recrudesceria com a expansão da base monetária. Outro argumento do ministro da Fazenda é que esses recursos, se liberados, acabariam, em parte, no Exterior. Howe se refere à nítida tendência à importação que se desenhou na Grã-Bretanha. Atualmente, segundo dados publicados recentemente pelo "Financial Times", as importações representam cerca de 35% do Produto Interno Bruto. Em 79, eram equivalentes a 32% do PIB e, há dez anos, a apenas 25%.
Obstinação
Para o ministro da Fazenda, a recuperação econômica da Grã-Bretanha terá de se basear na redução das taxas de juros internas que vêm acompanhando a tendência internacional ditada pela política do presidente Ronald Reagan. O próprio Howe, no entanto, parece não acreditar na eficiência das menores taxas de juros como força suficiente para impulsionar, a curto prazo, a economia do país. Há poucos dias, ao voltar de suas férias, declarou a uma rádio local que "os altos níveis de desemprego deverão ainda permanecer por um longo período’’.