[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  As manchetes que Ludwig de fato merece

quarta-feira 5 de julho de 1978


Talvez só a Marta Rocha, no auge de sua carreira, tenha tido Ibope, tanto espaço nas páginas de jornais e revistas, quanto o bilionário Ludwig. A dá-cá-lá-essa, palha, o leitor, a opinião pública, e brindado com amplas reportagens sobre o seu império, muitas vezes na vã tentativa de mostrar que seus empreendimentos seriam incompatíveis com a soberania nacional. Pois Ludwig escapou das manchetes, das reportagens, exatamente quando era preciso denunciar inacreditáveis distorções dentro da política econômica ou do modelo econômico do país. O começo da história tem praticamente dois anos. Ao lançar o Proálcool, o governo o apresentou como um programa revolucionário, destinado a acelerar a redistribuição de renda no país. Após imensa luta nos bastidores, enfrentando pressões de grandes grupos, governadores estaduais, secretários da Agricultura (eles próprios usineiros de açúcar), o governo decidiu que uma parcela dos bilhões de litros de álcool a serem produzidos usaria a mandioca como matéria-prima. A Petrobrás foi incumbida de montar as usinas que funcionariam nessa base, decidindo-se que elas surgiriam em regiões de intensa pobreza. Por quê? Centenas de milhares de famílias (centenas de milhares, mesmo, sem qualquer força de expressão), produtores marginalizados hoje sem qualquer renda, plantariam a mandioca para a empresa estatal. Seria o Proálcool criando empregos, renda, fixando o homem no interior, evitando o êxodo rural e por aí afora. Seria. Só que, meses depois, ficava-se sabendo que o governo decidira mudar tudo. No caso da usina de Curvelo, em Minas Gerais, o plantio e o fornecimento de mandioca deixavam de ser atribuições de centenas de milhares de famílias: dois grandes grupos abiscoitavam tudo. Ludwig e Antunes (da Hanna/Icomi). Um doce para quem não souber qual foi o pretexto invocado para essa reviravolta. Como sempre, lógico, a desculpa "tecnológica". Era preciso produzir mandioca em larga escala, era preciso técnica para isso, e, lógico, somente grandes grupos teriam condições de fazê-lo, através de plantations – como reza a cartilha concentradora da renda e da propriedade dos tecnocratas brasileiros (não só tecnocratas, mas também dos políticos e empresários brasileiros, de raciocínio tão distorcido quanto aqueles). Aí, Ludwig merecia uma manchete.

Segunda chance. As manchetes não vieram. Agora, dois anos depois, surgem notícias tímidas, perdidas no meio do noticiário quase diário sobre o Proálcool, dando conta de que o Projeto Veredas (o nome não poderia ser mais sugestivo nem mais fiel), de Ludwig/Antunes, malogrou. As grandes plantações favoreceram o surgimento de pragas, uma honraria que só a tecnologia sofisticada seria capaz de prestar a algo de tão rude, primitivo, resistente e, por isso, desprezado, a mandioca nacional... Os custos de produção, com incentivos e tudo, ficaram astronômicos, tornando a mandioca antieconômica para ser usada como matéría-prima do álcool. Ludwig, Antunes e tudo que seu projeto representa vão para o beleléu, e o que acontece? Nada. A notícia passa absolutamente ignorada, quando deveria ocupar manchetes. Por quê? Porque o Projeto Veredas (eta nome sugestivo!) é outro exemplo-síntese do fracasso, do desperdício do modelo concentrador; uma demonstração gritante das mentiras com que esse modelo tem sido defendido e implantado, perseguindo-se o pequeno produtor, seja na agricultura, na indústria, no comércio ou na prestação de serviços, com a desculpa de que só os grandes grupos proporcionam avanço tecnológico, podem produzir racionalmente e em condições competitivas. Como tal, isto é, como exemplo-síntese, o fracasso de Ludwig/Antunes deveria ser lembrado aos quatro ventos, como argumento em favor das mudanças do modelo. E isso era e é essencial – porque, em matéria de concentração da renda e da propriedade, o país tem feito grandes avanços. Rumo à distorção total, evidentemente.

Desfaçatez. Na história de um país há distorções que, por mais revoltantes, deixam apenas cicatrizes que podem ser removidas numa etapa seguinte. Uma fase de achatamento salarial, por exemplo, pode até gerar, em seguida, uma fase de pressões por maior participação da força de trabalho na renda nacional, corrigirido-se o desequilíbrio. Mas, na história de um país, há distorções tão profundas, tão essenciais, que modelam todo o futuro, toda a sociedade, toda a vida econômica e política por vir. É isso que as veredas concentradoras da renda fazem, estão fazendo, nas barbas de todos. Com elas não há retorno possível.

Às escâncaras. Ministros do atual governo e candidatos a postos-chaves no próximo saem por aí dizendo que redistribuir a renda é muito bonito, mas ninguém até hoje tem sugestões concretas de como fazê-lo. A afirmação é, por si, falsa e surge apenas como um sofisma para impedir que a opinião pública raciocine, favorecendo o imobilismo. Deixa para lá. O que importa, verdadeiramente, é que o país precisa entender que a concentração não pode ser combatida apenas em tese, em trabalhos acadêmicos e, sim, a cada instante, a cada passo, sempre que surgir uma diretriz ou um programa oficial que favoreça grandes grupos. Neste exato momento, ainda na área agrícola, há três exemplos monstruosos de que a mentalidade concentradora está viva. Sobre o primeiro já se falou aqui. Trata-se do programa dos cerrados, no qual o governo brasileiro vai aplicar 1 bilhão de cruzeiros, doando 20 mil hectares a 40 famílias (500 para cada uma), e mais 20 mil hectares a dois grandes grupos (novos Ludwigs e Antunes). Monstruosidade, quando se lembra que os recursos para aplicação no Nordeste, este ano, vão a apenas 7,2 bilhões de cruzeiros. O outro exemplo corresponde à tentativa de utilizar a peste suína como pretexto para acabar com centenas de milhares de pequenos produtores. Exatamente da mesma forma que se fez com a carne bovina, permitindo-se apenas o funcionamento de grandes frigoríficos, e com o queijo, fechando-se as queijarias artesanais. É o monopólio, a concentração, como diretriz oficial, com a proteção e os incentivos oficiais.

O despertar. Sem censura, com a liberalização crescente, o sectarismo pode sair de cena, abandonando-se os chavões contestatórios e abrindo-se espaço para o raciocínio claro em torno da realidade. Do que é essencial. A imprensa certamente vai descobrir que Ludwig, o plano dos cerrados, a peste suína, as queijarias e assim por diante merecem manchetes. Não pelos motivos aparentes. Mas pelo que é essencial – e não foi dito.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil