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  Os riscos da emoção na análise econômica

Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 25 de setembro de 1974


O alarmismo em torno da situação econômica mundial tem chegado a extremos incompreensíveis. A recente reunião de representantes de governos dos países desenvolvidos, por exemplo, tem sido apontada como um indício da catástrofe iminente - quando representou apenas um indício de que os governos não estão assistindo passivamente ao agravamento dos problemas. O perigo existiria se cada país tentasse resolver o seu “próprio” problema, numa atitude isolacionista. Isto sim, poderia gerar o caos.

Análise de técnicos do Citybank, publicada anteontem por este jornal, apresenta o clima emocional que está envolvendo o debate do problema - e aponta, inclusive, os riscos dessa atitude, que pode contaminar os empresários e a opinião pública mundial, resultando na materialização dos fantasmas tão invocados. A análise, considerada “teórica”, dos economistas do Citybank, encontra base na realidade do dia a dia.

Segundo ela, a grande depressão decorreu basicamente de crises, e das medidas para combatê-las, nestes países:

EUA - o Banco Central manteve a restrição de crédito mesmo quando a crise se delineava, e acabou levando o país a uma recessão.

Alemanha Ocidental - Falências provocaram corridas aos bancos e fuga de fundos estrangeiros. O governo precisava de apoio dos EUA para “salvar” o mercado, e esse apoio não veio.

Grã-Bretanha - Da Alemanha, a pressão espalhou-se para a Inglaterra, com o mesmo quadro: fuga de fundos estrangeiros e desvalorização da libra.

Todos esses países, no entanto, diz a análise, estavam atados ao sistema monetário da época, o padrão-ouro, com o dólar e a libra também servindo de reserva - porque eram conversíveis em ouro. “Quando a confiança no dólar e na libra se enfraqueceu, a conversão desses ativos (reservas) em ouro aniquilou uma grande parcela da liquidez internacional e comprimiu o fornecimento mundial do dinheiro”.

Conclui a análise do Citybank que “outra vez a história não pode repetir-se, pois nenhuma moeda é agora conversível em ouro”.

Além do mais, qual é a situação da economia das grandes potências de hoje - e, portanto, de suas moedas?

Alemanha Ocidental - Já em 1973, superou os EUA em matéria de exportações com 72,6 bilhões de dólares, contra 63,9 bilhões vendidos pelos norte-americanos. Com o superavit em seu comércio este ano, aumentará suas reservas em 6 bilhões de dólares.

Japão - Duramente atingido pela crise do petróleo, reagiu vigorosamente. Em julho e agosto, já conseguiu superavits, em torno de 500 milhões de dólares ao mês, em seu balanço de pagamento. Para não ir mais longe: em 1973, as exportações japonesas somaram 37 bilhões de dólares. Este ano vai atingir os 55 bilhões de dólares.

Grã-Bretanha - Com problemas crônicos de inflação, déficits comerciais, problemas salariais. Itália - Quadro também caótico, não em virtude da crise do petróleo, mas devido a uma política excessivamente liberal de crédito.

Vê-se assim que, duas das principais potências mundiais - e suas moedas - enfrentam tranqüilamente a crise. Itália e Grã-Bretanha têm obstáculos sérios pela frente - mas estão, inclusive, sendo pressionadas pelos demais países para adotarem políticas austeras.

E os EUA? Talvez nos seus problemas esteja a origem dos problemas do sistema monetário internacional. Mas a fraqueza do dólar não tem, hoje, o dom de provocar um colapso na economia mundial, na medida em que outras potências independem do seu socorro - ou podem mesmo socorrê-los, bem como aos demais países às voltas com problemas.

Não há desse lado, riscos de compressão violenta da liquidez mundial, como na década de 30. Mas, e os árabes? Não estão provocando a iliquidez mundial ao desorganizar o mercado de eurodólares? Dados oficiais do FMI, divulgados em agosto e ignorados não se sabe por que motivos, mostram que os empréstimos em eurodólares - exclusivamente dos bancos de euromoedas - no primeiro semestre de 1974 cresceram de 0,8%. Em relação ao primeiro semestre de 1973? Não. Em relação a todo o ano de 1973. Este ano foram emprestados, oficialmente, 13,7 bilhões de dólares contra 12,2 bilhões de dólares durante todo o ano de 1973.



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