Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 14 de abril de 1983
As operações de compra de ouro pela Caixa Econômica Federal a preços 80% acima, em média, das cotações do mercado mundial, continuam a ser apresentadas como “justificáveis” diante da necessidade de combater o contrabando do metal, para fora do País. Nesse raciocínio, o prejuízo de Cr$ 75 bilhões sofridos pela Caixa, e certamente coberto pelo Tesouro Nacional, é tido como aceitável, em nome do “interesse nacional”. As alegações em defesa de negócios que trouxeram lucros de 400%, em poucos meses, para instituições do mercado e especuladores, ignoram que a onerosa “operação ouro” era totalmente desnecessária, para evitar a saída do metal brasileiro.
Desde 1980, efetivamente, o governo brasileiro, diante da corrida à Serra Pelada, havia montado a “operação garimpo”, isto é, um esquema pelo qual a Caixa Econômica Federal passou a ter o monopólio da compra do ouro em pó, em determinados garimpos. Graças a essa política, a CEF conseguiu comprar 5 toneladas de outro em 1980, e 10 toneladas em 1981. Se a intenção do governo fosse ampliar essas compras, para aumentar as reservas de ouro do País, bastaria ter estendido o monopólio da Caixa a outros garimpos.
Essa hipótese foi descartada pelo governo, aparentemente para evitar críticas contra uma ação “estatizante”, permitindo-se que as empresas fundidoras continuassem a comprar o ouro nos garimpos sobre os quais a CEF não detinha o monopólio de compra, e para posterior revenda à Caixa.
A orientação seria aceitável, se a “operação ouro”, montada em meados de 1982, não tivesse características de um jogo de “cartas marcadas”, para proporcionar lucros extras às fundidoras e especuladores do mercado. Se o objetivo da Caixa Econômica fosse apenas evitar o contrabando de ouro brasileiro para o Exterior, ela poderia ter fixado um preço para o ouro de acordo com o mercado internacional, acrescido de uma razoável margem de lucro – 20 a 30%, por exemplo – para o vendedor. Essa diferença, por si só, seria suficiente para evitar que o ouro saísse do território nacional, pois ele conseguiria preços mais baixos, lá fora, sendo evidentemente mais vantajoso vender à Caixa, aqui dentro.
Colocando essas considerações de lado, a Caixa concordou em pagar, pelo ouro que as fundidoras lhe ofereciam, um valor equivalente ao preço do ouro em Nova York, acrescido de uma comissão – que chegou a até 9% -, e, convertido em cruzeiros com base na cotação do dólar no “mercado negro”. A decisão da Caixa elevou em 400% os preços do ouro em oito meses (de Cr$ 2.200 para Cr$ 10.080 o grama, de junho de 1982 a fevereiro de 1983), com enorme efervescência no mercado do metal, e no próprio “mercado negro do dólar”.
Mesmo depois da maxidesvalorização do cruzeiro, dia 18 de fevereiro, os preços do ouro e do dólar no “black” continuaram a subir, demonstrando claramente a manipulação criada pelas compras da Caixa. Uma distorção que fica ainda mais clara quando se vê que em três semanas, entre 18 de fevereiro e 4 de abril, o preço do ouro caiu quase 100 dólares por “onça troy” (31,1 gramas) na Bolsa de Nova York, de 504 para 419 dólares – e seus preços dentro do Brasil atingiram o “pico”, continuaram em alta, ainda por duas semanas.
A manipulação de preços proporcionada pelas compras da Caixa, com lucros de dezenas de bilhões de cruzeiros aos participantes nas operações, fica também evidenciado pelo comportamento dos preços do ouro, desde que a instituição suspendeu as compras no mercado, a partir de 7 de março. Com as compras agora novamente realizadas exclusivamente junto a garimpos (e não mais das fundidoras), estreitou-se violentamente a diferença entre os preços de Nova York e os preços do mercado brasileiro (com o preço do ouro, em cruzeiros, convertido para o equivalente em dólares, pela cotação do mercado negro). Na última semana, de 4 a 8 de abril, a diferença entre as duas cotações caiu para apenas 50%, contra até mais de 100% no começo de fevereiro.