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  De erro em erro, rumo à crise

Revista da Fenae , março de 1998


A economia brasileira permanece prisioneira de uma política de terra arrasada levada adiante pela equipe FHC/BNDES

Com seu humor negro, a equipe FHC/BNDES continua a fazer pilhéria com a gravidade dos rumos da economia brasileira. Em pleno fevereiro, o ministro Malan repete que o desemprego é um "problema localizado", isto é, exclusivo de São Paulo. Dias depois, o próprio IBGE mostra que, em dezembro, e mais uma vez, as demissões avançaram na indústria de todo o país, com queda de 4% até no Nordeste (apontando como um novo Eldorado da indústria, pela imprensa capachilda). E, diz o IBGE, no país todo, de 1990 para cá, a indústria nacional cortou nada menos de 40% (quase a metade...) de sua mão-de-obra. E a inadimplência galopante? Dizia-se que as vendas de Natal do comércio foram fracas porque "o consumidor preferiu utilizar o 13o salário para reduzir suas dívidas". A realidade? No mês de dezembro, o número de cheques sem fundos, já em constante evolução nos anos recentes, teve um desempenho espantoso: simplesmente dobrou, de 1,0 milhão para 2,2 milhões. A política de terra arrasada do governo Fernando Henrique vai mostrando cada vez mais o perfil: o poder de consumo do brasileiro foi destruído com o desemprego, o escancaramento às importações, o achatamento do vencimento do funcionalismo, os juros escorchantes que estão quebrando o próprio Tesouro, além dos Estados e Municípios. A economia é uma bola de neve, rolando ladeira abaixo.

Na aparência, haveria apenas uma área em que o otimismo de Brasilia teria justificativa, a saber, a estratégia montada para atrair dólares e tentar afastar a ameaça de desvalorização do Real. Em fevereiro, houve efetivamente uma "enxurrada" de US$ 6,0 bilhões para o país. Mas - e os banqueiros sabem muito bem disso - o grosso desse dinheiro se destinou apenas ao "jogo de ganhar juros", aproveitando brechas (maquiavelicamente?) deixadas pelo Banco Central nas normas sobre o capital estrangeiro (em bom português, "fraudes oficializadas’ na chamada 63 caipira, e operações fictícias com ações). Como grande atração, óbvio, as maiores taxas de juros do mundo que acabam por arrasar o Tesouro. Uma política de dias contados, já que o "rombo" do setor público é um dos principais indicadores aos quais os banqueiros e investidores estrangeiros prestam atenção. E ele, desementindo mais uma vez o otimismo da equipe FHC, acabou estourando em 1997, aproximando-se do equivalente a 6% do PIB - apesar do dinheiro da privatização e tudo... Um resultado que parecerá ainda pior, quando se descobrir, daqui a algum tempo, que o PIB é menor do que o Banco Central diz, e, portanto, o "rombo" é proporcionalmente maior.

Tenta-se, ainda e sempre, esconder a realidade, acenando-se com a possibilidade de saldos na balança comercial, graças ao avanço das exportações agrícolas nestes próximos meses. A melhora seria passageira. E, certamente, abaixo das expectativas de Brasília: soja e café enfrentam um ano de superprodução mundial e, com a queda dos preços, renderão menos no comércio internacional (em dezembro, a soja era vendida a R$ 19,00 a saca, no interior do Paraná; no final de fevereiro, em torno de R$ 14,00). E o Brasil, devido à queda da produção, importará arroz e milho - produtos que, inversamente, estão custando mais dólares estes anos.

No plano interno, perspectiva de agravamento do rombo da União e Estados, devido à queda na arrecadação, provocada pela recessão. No externo, desconfiança diante do "rombo" nas fianças. A economia brasileira permanece prisioneira de uma política equivocada.



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