[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Os resultados dos "pacotes"

Revista Nova , agosto de 1983


O Brasil está conseguindo aumentar suas exportações, obtendo mais dólares para pagar suas dívidas junto aos credores internacionais, trazendo a esperança de que 1984 seja um ano mais tranqüilo do que 1983. Você vê essas perspectivas com satisfação, mas, ao mesmo tempo, não pode deixar de sentir-se confusa: afinal, os problemas brasileiros não eram imensos? Como foi possível que a situação melhorasse? Não haveria um exagero nas críticas aos erros que teriam sido cometidos pelos ministros brasileiros? Afinal, perguntará você aos seus botões, o Brasil não terá mesmo – como os ministros afirmam – sido a vítima de problemas internacionais?

Você tem toda a razão para ter dúvidas. Com a crise da economia brasileira, nos último anos, surgiu um péssimo vício, no Brasil: as análises dos problemas são sempre “radicais”. De um lado, ficou o governo sempre a dizer que “tudo está muito bem”. No outro extremo, os críticos também não deixaram por menos: “não há saída”, ou: “agora é o caos”.

O que ocorre no Brasil e em outros países – e é bom você ter isso na cabeça, para passar a olhar os problemas econômicos com maior serenidade – é que as análises sofrem de um grande pecado: o “imobilismo”. O que isso quer dizer? Existe um hábito generalizado, tanto da parte do governo quanto dos críticos, de não acompanhar a evolução dos fatos – do país ou do mundo. Por exemplo: a dívida externa brasileira “estourou” o final de 1982 porque as exportações caíram violentamente. E daí? Daí que o governo poderia ter previsto essa queda já no final de 1981, se tivesse prestado atenção aos problemas que estavam surgindo nos países produtores de petróleo, nos países africanos e latino-americanos, que eram os maiores responsáveis pelo crescimento das exportações brasileiras.

E os críticos? Eles, da mesma forma, tiveram essa visão “imobilista”, desatenta a mudanças, na etapa seguinte, isto é, em 1983, e ficaram a repetir, insistentemente, que o Brasil não conseguiria aumentar suas exportações e, por isso, não obteria saldos na balança comercial, como os banqueiros internacionais exigiam. Onde o seu erro? O mesmo erro do governo, na etapa anterior: não prestaram atenção nas mudanças que vinham ocorrendo, não viam que “hoje” não era igual a “ontem”, isto é: em 1982, a economia dos Estados Unidos mergulhava em uma recessão cada vez mais profunda; em 1983, ela já estava em recuperação, desde o começo do ano, com reflexos benéficos sobre as exportações brasileiras.

Veja bem, isso e muito importante para você. A partir de agora, tenha sempre a cabeça que as análises econômicas padecem desse mal do “imobilismo”. Assim, não embarque nem no “pessimismo” nem no “otimismo” que não sejam baseados em aumentos que levem em conta não apenas o que aconteceu até “hoje”, mas também o que pode acontecer “amanhã”.

Aqui, chegamos a um ponto muito importante, sobre o qual você precisa refletir – e muito. Quando os críticos fazem análises “catastrofistas”, eles, por mais bem-intencionados que estejam, cometem um mal terrível. Por quê? Pelo fato puro e simples de que, depois, suas previsões não se confirmam, como é o caso do aumento das exportações brasileiras – e, para a opinião pública, fica parecendo que, na verdade, os ministros são “geniais”, pois tiraram o país de uma enrascada “sem saída”.

Qual o mal disso? É sobre isso que se deseja que você reflita: todos os problemas econômicos, na verdade, têm uma solução, a partir do momento em que o governo decida enfrentá-los. O problema não é a “falta de saídas”, mas – atenção – do “preço social” das decisões adotadas. Você pode entender isso facilmente, com a experiência deste ano, com os “pacotes” agravando o desemprego, provocando inflação e recessão em determinados setores da economia. Com o povo sofrendo, duramente, as conseqüências dos desacertos anteriores dos ministros.

O próprio crescimento das exportações, que os ministros apontam como um “êxito”, têm um alto “preço social” . Como assim? Para baratear os produtos brasileiros, o governo permite que as empresas comprem peças e componentes de indústrias estrangeiras, onde essas peças e componentes são mais baratos (isto é, o país gasta dólares para pode exportar depois, e cria desemprego nas fábricas de peças daqui). O governo dá, ainda, perdão de impostos às empresas que exportem, isto é, deixa de arrecadar recursos que poderiam ser usados em obras públicas e na criação de empregos. Ou, finalmente, desvaloriza violentamente o cruzeiro para “baratear” os produtos brasileiros, provocando inflação: em meados deste ano, o cruzeiro já havia sido desvalorizado nada menos de 200% em doze meses, puxando inacreditavelmente a inflação.

Em conclusão: as exportações crescem à custa de um terrível “preço social” representado pelo desemprego e pela inflação. É esse “preço social”que o “otimismo” dos ministros tenta encobrir. O país não vai “falir”. Mas continua precisando de mudanças na política econômica, que evitem, no futuro, a necessidade de “pacotes” de alto “preço social”.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil