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  A crise, a classe média e a estratégia de Ronald Reagan

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 4 de outubro de 1981


Neste País de modismos, está na moda dizer que "a classe média está sendo esmagada". Como faz imenso sucesso encerrar qualquer discussão sobre a crise econômica recorrendo a algumas tiradas filosóficas de: "Quem criou a divida externa não fomos nós. Nós não temos nada com isso. Não aceitamos, agora, a atual política econômica que nos faz pagar o preço dos erros que não cometemos. Os erros são de um governo...(pausa, a espera da aprovação dos ouvintes politizados)... que não escolhemos".

A reação lembra as tentativas mágicas, típicas de crianças, de cancelar a realidade. Porque a verdade é que o País está mergulhado numa crise cambial, provocada pela divida externa e, se o País somos nós, nós é que teremos que viver essa realidade. Tenhamos ou não sido os responsáveis por ela.

Além do mais, quando se afirma que a dívida é filha exclusiva do governo, ou do ministro Delfim Neto, está-se faltando à verdade. A divida externa brasileira tem padrinhos, tios. madrinhas, tias — e mãe. Se ela chegou ao ponto que chegou, nos dois últimos anos, não foi por mérito exclusivo do superministro, mas porque economistas famosos, líderes empresariais idem, donas de casa e chefes de família por eles influenciados, pediram a volta ao crescimento desordenado. Não apenas pediram, mas exigiram. Tanto exigiram que derrubaram o ministro Simonsen exatamente porque ele tentava implantar uma política de crescimento ordenado, que impediria o agravamento da situação cambial ao ponto a que se chegou. A mãe da divida externa, em sua nova escalada nos últimos dois anos, foi a vontade nacional de crescer a qualquer preço, não aceitando qualquer advertência sobre o beco sem saída para o qual o País se encaminhava.

Essa a realidade que, evidentemente, não absolve o ministro Delfim Neto do monumental erro de cálculo que cometeu — deixando-se de lado a hipótese, levantada por alguns analistas na época, de que de sabia para onde sua política de crescimento levaria o País. Uma versão segundo a qual ele previa a crise atual, e a desejava, jogando no “fechamento político”, como ocorrera em 1968/70.

A aventura do crescimento desordenado desembocou no porto previsível: saltos nas importações, salto nos déficits, salto no endividamento externo. Há um ano atrás, no último trimestre de 1980, os banqueiros internacionais, o FMI e os governos amigos acabavam com a festa: julgando que o Brasil caminhava para uma situação de insolvência, em que não poderia pagar seus compromissos no Exterior, passaram a advertir Brasília da necessidade de "apertar os cintos". Austeridade, ou não haveria novos empréstimos ao Brasil que, sem eles, entraria em colapso, pois não disporia de dólares sequer para realizar suas importações, chegando à paralisação da indústria e da economia.

Por imposição internacional, o governo brasileiro fez o que deveria ter feito à época de Simonsen: impôs freios à expansão da economia, para reduzir o ritmo de crescimento da dívida externa e continuar contando com a boa vontade dos seus credores. Esse objetivo foi buscado através do único caminho possível: medidas para contenção do consumo. Para isso, o único caminho também possível era reduzir o poder de compra de quem consumia os bens dependentes de importações: a classe média. Foi por isso que surgiram, este ano, o aumento indireto do Imposto de Renda recolhido na fonte, a mudança na política salarial, com limites para o aumento das faixas de ganhos mais altas, e a própria elevação das taxas de juros no crediário. Tudo, repita-se, para deixar menos dinheiro na mão da faixa responsável pela maior parcela do consumo: a classe média.

À desejada retração na demanda, evidentemente, se destinava a reduzir a produção daqueles bens dependentes de importações, numa primeira etapa. Numa etapa seguinte, as empresas procurariam exportar, para compensar a retração no mercado interno, obtendo dólares para reduzir o crescimento da dívida externa. Nessa estratégia, a queda na produção e a elevação do nível de desemprego seriam temporários: além da contribuição trazida pelas exportações, haveria um crescimento de setores não dependentes de importações. Uma "reciclagem na economia", como se diz, com desaquecimento dos setores que agravam a dívida externa e expansão para os que não têm esse aspecto.

Essa, em linhas gerais, a estratégia, e cujas distorções poderiam ser eliminadas à medida que fossem detectadas. O debate que se trava em torno dela, no entanto, não oferece nenhuma contribuição nesse sentido. Irresponsavelmente, critica-se o endividamento externo — e, contraditoriamente, se advoga a volta ao crescimento desordenado. Muito cômodo. Chega-se ao cúmulo de insistir na tese do "esmagamento da classe média", como se fosse possível manter o seu consumismo e, ao mesmo tempo, conter o endividamento externo. Num parêntese: a classe média, em resumo, terá mesmo que cortar seu consumo durante alguns anos. A estratégia está correta, na essência. O que se pode, e se deveria questionar, é a forma como a estratégia foi implantada: o governo poderia ter optado por reduzir a quantidade de dinheiro na mão da classe média através de um empréstimo compulsório. Optou por uma violência: as medidas adotadas "confiscam" a lenda da classe média.

Feche-se o parêntese, retome-se o raciocínio. Neste momento, fica ainda mais clara a necessidade de o Brasil manter, e até aprofundar, uma política de crescimento ordenado, por dois ou três anos. O País precisa apertar o cinto para que sua situação cambial não se agrave, pois ela o torna extremamente vulnerável, sujeito a pressões e imposições do Exterior.

As intenções do governo Reagan, anunciadas na reunião do FMI, não deixam a menor dúvida de que países com problemas cambiais, como o Brasil, passarão por maus bocados, nos próximos anos. Ficará mais difícil obter empréstimos, a menos que se seja "bonzinho". E Reagan deixou bem claro que ser "bonzinho" significa também olhar com multa simpatia a entrada de dólares trazidos por multinacionais, para investimentos em qualquer setor. Deixar de lado temores infantis de "desnacionalização", bobagens como proteção à empresa nacional, sonhos como desenvolvimento de tecnologia própria. Significa que não basta abrir as portas ao capital externo: é preciso escancará-las ainda que semeie novas crises cambiais, no futuro, pois esse é sempre o seu resultado.

Se o País somos nós, o quadro não comporta o cômodo "lavar as mãos". "Pacto Social", a esta altura, significa avaliar a extensão da crise e suas conseqüências sobre o futuro do Brasil. Decidir que país se deseja ter, no futuro, em termos de soberania. Rejeitar os sacrifícios desnecessários — mas também não esconder a realidade, que impõe a necessidade de sacrifícios. E manter coerência no debate da crise. Sem modismos.



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