Jornal Diário da Manhã , domingo 17 de abril de 1983
De volta das férias, no início de março, uma dona-de-casa paulistana entrou em um supermercado da região de Pinheiros, para uma pequena compra. À saída, adquiridos apenas três produtos de consumo habitual, tirou uma cédula de Cr$ 1.000, de sua carteira, enquanto a moça do caixa registrava suas compras. Contabilizadas as despesas, verificou, surpresa, que os Cr$ 1.000 não eram suficientes: um saco de batatas de dois quilos, sozinho estava custando Cr$ 750, isto é, Cr$ 375 o quilo, para indignação da consumidora. Três dias antes, no Interior, ela pagara Cr$ 120 pelo quilo do produto.
O episódio, real, dimensiona fielmente a intensa especulação em torno dos preços de verduras e legumes ocorrida neste começo de ano, massacrantes aumentos de 400% a 500% para o consumidor. Em meio à total inércia dos ministérios responsáveis pelo combate à inflação e órgãos diretamente responsáveis pelo abastecimento, as chuvas de dezembro foram utilizadas como pretexto para brutais majorações, sem que, nesse tempo todo, se tomasse qualquer iniciativa para apurar até onde a carestia se justifica, e até onde havia especulação.
Dados oficiais comprovam que, principalmente em janeiro e fevereiro, a especulação estava em cena, tirando proveito da queda na oferta. Resta verificar se ela deixará de existir, ou voltará aos “padrões normais”, permitindo que os preços caiam rapidamente para o consumidor já nos próximos dias, agora que a produção de verduras e legumes volta a subir rapidamente.
Carestia exagerada
Segundo dados da Ceagesp, apesar das chuvas, a entrada de legumes no Ceasa de São Paulo caiu apenas 6,5% entre novembro e dezembro. Uma diferença irrisória, e ainda menor, na realidade, pois novembro teve 26 dias úteis e dezembro teve apenas 25. Mais significativo ainda: em janeiro, quando a disparada de preços já estava ganhando ritmo, a entrada de legumes no Ceasa chegou a ser 10% maior do que no mês anterior e 3% maior, mesmo, do que o próprio resultado de novembro – desmentindo as análises de “grandes quebras na produção”, provocadas pelas chuvas.
Mesmo em fevereiro, quando a carestia ganhou as nuvens, a queda na entrada de legumes no Ceasa não teve nada de catastrófico: menos de 10,8% em relação a novembro (antes das chuvas de dezembro, portanto). E essa queda se estreitaria ainda mais em março, para apenas 4,6%. Como explicar a escalada de preços?
Para as verduras, o quadro não foi muito diferente, até janeiro. Houve queda na oferta de 8,9% em dezembro, mas já no mês de janeiro a entrada de verduras na Ceagesp voltava a crescer, reduzindo a diferença – sempre em relação a novembro, isto é, antes das chuvas – para tão-somente 1,5%. Apenas em fevereiro e março a queda seria acentuada: 25% e 30%, em relação a novembro, para a entrada de verduras no entreposto paulista, onde atacadistas, feirantes e distribuidores em geral fazem suas compras para a revenda.
Todos esses dados oficiais mostram, em resumo, que a intensificação da alta não se justificava, em janeiro – pois a oferta, entre legumes e verduras, foi maior do que em dezembro. E que a disparada em fevereiro, principalmente para legumes, foi desproporcional ao nível de escassez real. Sua intensidade poderia ter sido reduzida, se tivesse havido algum tipo de ação oficial para contê-la. No caso da batata, que surpreendeu desagradavelmente à dona de casa de Pinheiros, a manipulação de preços a nível de varejo era claríssima, àquela época: no Ceasa, durante praticamente todo o mês março, a saca de batata de 60 quilos podia ser comprada na faixa de Cr$ 7.000, isto é, o equivalente a Cr$ 120 o quilo, ou pouco mais. Quem a vendia a Cr$ 375 estava multiplicando o preço do produto – e seus lucros, em mais de três vezes.
Alguns técnicos do setor tentam minimizar a validade desses dados – de “entradas” no Ceasa – como indicadores de que a “quebra” na oferta foi menor do que se afirmava. Segundo eles, outros Estados costumam abastecer-se no Ceasa paulista, principalmente quando as chuvas provocam estragos nas plantações em seu próprio território. Essa possibilidade é totalmente desmentida por uma publicação da Cobal, empresa do Ministério da Agricultura (“Informe Técnico”), de fevereiro último. Em janeiro, não houve uma queda, e sim uma expansão de 7,2% na entrada de hortifrutigranjeiros na rede nacional de Ceasas. Se os preços começaram a disparar já em janeiro, portanto, foi por falta de conhecimento da realidade, que criou um clima propício à especulação.
Mesmo agora, em abril, esse mesmo irrealismo está sustentando a carestia e prejudicando o consumidor. Já desde a semana atrasada (4 a 10 de abril), a entrada de verduras no Ceasa de São Paulo deu um salto, de 35%, em relação à semana anterior. Na entrada de legumes, houve um salto ainda maior: 40% também em relação à semana anterior. Os reflexos sobre os preços foram bastante tímidos, mesmo na semana passada. A mentalidade inflacionária e a inércia do governo vêm retardando sua queda.