Revista Visão , quarta-feira 24 de abril de 1991
Em artigo publicado nos jornais, o deputado César Maia ressuscita uma tese que mesmo os primeiros ministros da Nova República, em 1985, gostam de repetir em conversas confidenciais – sem nunca dizer, publicamente, que eram adeptos de tal teoria. Para eles, era “bobagem” derrubar a inflação, no Brasil. Em frio economês, dizem que a inflação era até um bem, pois tinha sido sempre um dos principais fatores do crescimento econômico do país. Por quê? Porque na inflação alta – racionavam os ministros e seus assessores, célebres “economistas de oposição” à ditadura – as empresas lucram sempre, os salários perdem sempre. Isto, na visão gelada dos economistas, significava que as empresas aumentavam seu patrimônio, se capitalizavam – e, com isso, conseguiam realizar investimentos, criar novas fontes de produção, desembocando-se no crescimento da economia, ano a ano.
Sintetizando: taxas altas de inflação proporcionam a capitalização das empresas, permitindo-lhes investir – e é isso que importa para o país. E o povo, os milhões de assalariados miseráveis, massacrados pela inflação? Nos palanques, os ministros e seus assessores até demonstravam certa simpatia por eles, claro – mas, “do ponto de vista do processo histórico, o que importa é o crescimento. O sofrimento das pessoas não conta”.
Nessa teoria, de que “a inflação é um bem”, a longo prazo, chegava-se ao refinamento de dizer que a inflação somente atrapalhava as empresas quando ela oscilava muito, dava saltos de um mês para outro, “porque tornava muito difícil fazer o planejamento de negócios e de investimentos”. Por isso, diziam esses ministros e assessores, a verdadeira meta da Nova República não era reduzir a inflação a baixos níveis, como o brasileiro pensava, mas sim, estabilizá-la na faixa dos 10%, por exemplo. Por mais cruel que fosse, por sua indiferença para com a qualidade de vida das milhões de famílias brasileiras, a tese somente foi abandonada quando alguns imprevistos mostraram não ser possível “estabilizar” a taxa. Ela explodiu e foi preciso inventar o primeiro choque heterodoxo, o Plano Cruzado.
A descoberta da falência da teoria veio demasiado tarde: de lá para cá, foi uma sucessão de crises (e choques) que têm destroçado a economia e a vida dos brasileiros. Sintomaticamente, e não fosse o Brasil um país de memória curta, exatamente neste momento que a inflação cai, e cai até a níveis que nem o governo esperava, ressuscita-se a tese de que a inflação pode ser um “bem”. Segundo o deputado César Maia, a queda muito rápida da inflação seria um mal, porque “quebraria as empresas, quebraria os bancos, quebraria os próprios governos”. Como o deputado tem demonstrado sintonia com a equipe econômica, pode-se temer que seja este o ponto de vista que está predominando nos gabinetes ligados à ministra Zélia, mesmo porque muitos deles estão ocupados por economistas que participaram do primeiro governo da Nova República, em seu princípio.
Os bancos não suportariam uma queda rápida da inflação, afirma-se, porque seus lucros são garantidos pela diferença (spread) entre as taxas pagas por eles para captar dinheiro dos investidores e as taxas que cobram nos empréstimos às empresas. Em tempos de inflação alta, pode-se impor spreads elevadíssimos, porque, com índices inflacionários de 700%, 1.000%, 2.000% ao ano, ninguém se incomoda, ao tomar um empréstimo, em verificar se o spread é também de 200% ou 300% ao ano. Com taxas de inflação baixas, a cabeça das pessoas muda, e para índices de 100% ao ano spreads de 20% a 30% (lucro dos bancos sobre o dinheiro captado) podem parecer excessivos. Assim, diz a teoria, a inflação baixa não interessa aos bancos, provocaria sua quebra. E as empresas? Diz a mesma teoria que elas quebrariam por dois motivos: deixariam de ganhar (as grandes, que fazem aplicações) com a especulação financeira, e deixariam de ganhar com a corrida entre preços e salários, isto é, com a prática de reajustar violentamente os preços em um mês e assim fazer a receita, para pagar os salários reajustados com um atraso de praticamente dois meses. Quanto ao governo, finalmente, também deixaria de ganhar com o atraso no pagamento de suas contas – sem correção, e com a cobrança da correção dos impostos. Há quem fique ruborizado, e extremamente ruborizado, com o cinismo dessa teoria, de que a inflação é um bem.
O que seus defensores estão omitindo é que a queda da inflação realmente traria problemas novos às empresas, bancos e governos. Mas não é verdade que eles viessem a “quebrar”, forçosamente. Quanto ao governo, bastaria que ele combatesse as fraudes e a sonegação, com vigor, para que a carga tributária até pudesse ser reduzida. Quanto aos bancos e grandes grupos empresariais, há dois caminhos que precisariam ser trilhados. Em primeiro lugar, eles certamente teriam que se desfazer de parte do imenso patrimônio que acumularam nos últimos anos, em setores que não os seus próprios, incluindo-se aí gigantescos latifúndios. O segundo caminho seria, inevitavelmente, reduzir suas margens de lucros – que o deputado César Maia e a equipe econômica sabem que se situam entre as mais elevadas do mundo. Em resumo, é evidente que a inflação “não pode” cair, quando se considera que nada precisa mudar no Brasil. Se a margem de lucro escorchante for intocável, se os salários mesquinhos forem eternos, se a acumulação de fortunas e patrimônios for intocável, então não há mesmo como aceitar a queda rápida da inflação. Agora, para quem acha que o Brasil precisa mudar, a conclusão é outra. Fica o alerta: é bom começar a observar o governo, e ver se ele vai mesmo tentar segurar o ritmo de recuo da inflação.