Revista da Fenae , julho de 1999
O governo da Bahia gastou R$ 1,6 bilhão para "preparar" o Baneb para a privatização. Apurou cinco vezes menos, no leilão, ou algo como R$ 300 milhões. O governador Garotinho revela: o Estado do Rio teve um prejuízo de astronômicos R$ 12 bilhões com a venda do Banerj, no governo anterior. Mais ainda: o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, foi ao senado e fez uma revelação capaz de provocar um terremoto na opinião pública de qualquer país que não o Brasil: o "ágio" que os "compradores" das estatais oferecem nos leilões são mera enganação. Por que? É que o Tesouro acaba devolvendo esse valor aos compradores nos anos seguintes, sob o disfarce de "desconto no Imposto de Renda". Como os compradores de estatais também podem receber de volta os prejuízos acumulados (antes da privatização) nos balanços de empresas privatizadas, não é preciso ser nenhum gênio em matemática para chegar à conclusão óbvia: a história de que as estatais estão sendo literalmente doadas não é nenhuma força de expressão. Para a sociedade, fica apenas um imenso passivo, que agrava o rombo do setor público e, conseqüentemente, a crise econômica. Todos esses dados são autêntica munição para mobilizar a opinião pública contra as privatizações. Fica no ar a pergunta: o movimento sindical está sabendo aproveitá-la realmente? Ou a eterna divergência entre correntes ditas "ideológicas" continua a funcionar como um trunfo para a direita neoliberal?
Sobram fatos novos a mostrar que o momento é propício a uma "arrancada" contra a venda de estatais. A elevação dos preços da gasolina e outros combustíveis tem um efeito demolidor na opinião pública, tão ou mais desmoralizante para o prestígio do governo quanto a queda do real, em janeiro último. Ainda mais porque, note-se, outros aumentos terão de ser decretados, como conseqüência da alta de 60% a 80% nos preços internacionais do petróleo. Ironicamente, neste caso, o governo tornou-se prisioneiro de suas próprias mentiras: o presidente da Agência Nacional do Petróleo, David Zylberstein, escondeu nos últimos meses que o custo do petróleo havia subido numa estratégia para justificar a entrega do petróleo brasileiro às multinacionais, a preços simbólicos (lances de R$ 50 a R$ 150 mil). Para o governo, revelar a verdade sobre a alta da gasolina, agora, equivaleria a admitir que enganou a sociedade na privatização do petróleo, provocando reações no Congresso. Um Congresso, aliás, que a esta altura já não oferece um respaldo tão confiável ao presidente Fernando Henrique. Qualquer observador atento foi capaz de detectar a "virada" ocorrida em partidos da base governista, como o PMDB e o PFL. Entre os sintomas mais significativos do esfalecimento da base governista do governo, está uma iniciativa absolutamente impensável há poucos meses ou semanas: a CPI do sistema financeiro, criada para apurar exclusivamente o episódio dos bancos Marka e Fonte Cindam, estendeu suas investigações para todo o programa de socorro aos banqueiros: o Proer. Quem tem memória, sabe que durante anos as oposições quiseram devassar o Proer, sem êxito, graças ao bloqueio dos partidos governistas. O afastamento do PMDB e o PFL em relação ao presidente da República tende a intensificar-se rapidamente daqui em diante, por força mesmo do agravamento da crise econômica. Ao longo do mês de maio, esboorou-se a mitologia criada pelo governo em torno da reconquista da credibilidade internacional, e conseqüente estabilidade do Real. Desconfiados com a explosão da dívida interna e externa, e a falta de reação das exportações brasileiras, os banqueiros internacionais somente emprestavam a empresas brasileiras desde que pagassem exatamente o dobro das taxas de juros aceitas há um ano atrás. O que significa, ao longo do tempo, nova explosão no pagamento de juros, em dólares, capaz de aumentar a desconfiança dos banqueiros, em um interminável círculo vicioso de conseqüências bem conhecidas. Novos abalos aguardam o real, jogando para as profundezas ainda maiores o prestígio do presidente Fernando Henrique. Campo favorável para novas batalhas contra a política neoliberal e as privatizações indiscriminadas.