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  Alimento forçou a inflação de março, não a máxi de 30%

Jornal Folha de S.Paulo , sábado 9 de abril de 1983


A Fundação Getúlio Vargas, ao divulgar os dados relativos à inflação recorde de março, distribuiu também uma explicação na qual afirma que a maxidesvalorização do cruzeiro foi a responsável pelo “salto” no índice. Dizendo o que o ministro Delfim Neto mandou que ela dissesse, a Fundação Getúlio Vargas, outrora respeitável, diz que não há, portanto, motivos para preocupação: passados os efeitos da máxi, tudo deve voltar ao normal.

A explicação foi prontamente endossada pelo ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, e, lógico, pelo presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Luis Eulálio de Bueno Vidigal Filho, para o qual, após a queda do cruzeiro, “era esperado um aumento da taxa inflacionária”. Também no Ministério do Planejamento, evidentemente, a mesma versão foi repetida, acrescentando-se que, já que tudo é culpa da máxi, não haverá mudança de estratégia, “pois a inflação cairá nos próximos meses”.

Todos esses pronunciamentos comprovam que o Brasil, além de ter sido atingido pela maxidesvalorização, está sendo arrasado por outras máxis: máxifalta de vergonha, máxidesrespeito à verdade, máximentira, máxidesprezo para com a opinião pública, máxi-desprezo para com os problemas da população. Pois todos eles são mentirosos – como os próprios dados sobre a inflação, divulgados pela FGV, mostram: a maior alta em março foi de produtos que nada têm a ver com a máxi. Foram os alimentos, mais uma vez, que puxaram o índice, subindo nada menos que 14,8%, em um mês – e estrondosos 35,7% no trimestre.

Isso, no atacado. No cálculo do índice de custo de vida, o desempenho se repete: 12,2 de alta para alimentação, no mês, ou 35,4% no semestre.

As mentiras em torno da inflação de março não surpreendem, porque ninguém espera, a esta altura, ouvir verdades da boca dos manipuladores de estatística sobre exportação, importação, dívida externa, estouro no crédito, política monetária, tudo enfim.

Não surpreendem, mas nem por isso deixam de alarmar quem esteja interessado em evitar que o País mergulhe no caos social. Quando ministros, dependentes, instituições amorais continuam tentando encobrir a verdade, torna-se difícil para o País, e até para o presidente da República, enxergar a natureza real dos problemas, e a possibilidade de solucioná-los.

As mentiras sobre as causas da inflação tendem a fazer o Palácio do Planalto a permanecer de braços cruzados. Quando sua função, a esta altura, seria lançar uma ofensiva para reduzir rapidamente o custo da alimentação. Seria tentar saber as razões pelas quais o custo dos alimentos está disparando quando, no ano passado, as grandes safras de praticamente todos os produtos provocaram prejuízos ao produtor, que as vendiam a preços baixíssimos.

Seria investigar “para onde” foram os grandes estoques que o governo formou, comprando as colheitas dos produtores, porque não havia mercado para elas. Seria apurar as margens de lucros das indústrias do setor dos supermercados e dos intermediários. Seria procurar saber se o crédito rural, que é emprestado também a atravessadores e indústrias, não está sendo usado para a formação de estoque especulativos e sonegação de mercadorias.

O papel do Palácio do Planalto, a esta altura, seria acima de tudo perguntar aos ministros – e sua legião de assessores do Planejamento, Fazenda, Agricultura, Cobal, Secretaria Especial de Abastecimento e Preços e adjacências apenas uma coisa: o que estavam eles fazendo em janeiro, fevereiro e março, enquanto os preços dos alimentos disparavam? Por que não tomaram uma única iniciativa até agora? São coniventes ou incompetentes? Em qualquer um dos casos, não merecem os salários que a Nação lhes paga.



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