Jornal Diário Popular , terça-feira 28 de setembro de 1999
Quem fornece os dólares para o Brasil pagar suas compras lá fora? Dólares, por exemplo, para importar máquinas utilizadas pela indústria automobilística, ou peças para produzir telefones celulares, ou uísque para as festas em Brasília, ou rações para o gatinho da madame? As próprias indústrias? Não. Você está redondamente enganado. No Brasil, o setor industrial, agora dominado pelas multinacionais, importa mais do que exporta, isto é, desempenha o papel de "devorar" dólares, para poder funcionar. Quem fornece os dólares para o Brasil, então? É exatamente o setor agrícola, ou os milhões de produtores rurais que fornecem soja, café, açúcar, carnes, frangos, suco de laranja para serem vendidos ao mercado internacional.
É o setor agrícola que exporta mais do que importa, isto é, deixa uma sobra de bilhões de dólares para o País. Sem os agricultores, em outras palavras, a própria indústria seria obrigada a parar, por não ter dólares para pagar suas contas. A própria economia do País entraria em crise ainda maior, por falta de dólares. Apesar de sustentar a economia nacional há décadas, fornecendo-lhe até os dólares que permitiram a importação de máquinas para instalação de fábricas, os agricultores brasileiros raramente tiveram apoio verdadeiro dos governos, e seus problemas são ignorados pela imprensa. Ou, pior ainda, em um comportamento beócio, os meios de comunicação frequentemente tratam os agricultores como "aproveitadores" e caloteiros".
Valendo-se dessa visão errada que predomina no Brasil, o governo FHC "massacrou" os agricultores brasileiros de todas as formas: suspendeu a compra das colheitas, deixando os produtores nas mãos dos intermediários (redes de supermercados, inclusive) e cortou o crédito rural, para plantio, à cifra miserável de 1,5 bilhão de reais, no ano passado, ou oito vezes menos que os 12,0 bilhões de reais emprestados antes de 1995.
Pensava-se que, neste ano, esse tratamento fosse mudado, por um fato simples: a agricultura, com apoio, poderia aumentar as próximas colheitas, criar milhões de empregos, gerar renda e consumo, isto é, reduzir a recessão no País — além, óbvio, de fornecer mais dólares de que a economia tanto precisa para enfrentar os compromissos externos. Engano total. O governo FHC não aprende, ou não quer aprender. E época de plantio. E famílias de pequenos produtores fazem manifestações de protesto no Sul do País. Por que? Por que não há crédito para plantar.
A sociedade brasileira ainda não entendeu que financiar a agricultura, apoiar a agricultura, não é um "ato de caridade", uma "política humanitária", e sim uma diretriz de política econômica para garantir o crescimento econômico e afastar crises. Um suporte mais do que merecido por quem garante os dólares que a indústria e as classes de maior renda gastam. Até quando?